28 junho 2009

INTRODUÇÃO ANTROPOLÓGICA AO ESPIRITISMO

Um século após a codificação do Espiritismo por Allan Kardec, reina ainda grande incompreensão a respeito da doutrina, de sua própria natureza e de sua finalidade. A codificação, entretanto, foi elaborada em linguagem clara, precisa, sensível a todos. A lucidez natural do espírito francês, Kardec juntava a sua vocação e a sua experiência pedagógicas, além da compreensão de tratar com matéria sumamente complexa. Vemo-lo afirmar, a cada passo, que desejava escrever de maneira a não deixar margem para interpretações, ou seja, para divergências interpretativas.
Qual o motivo, então, por que os próprios adeptos do Espiritismo, ainda hoje, divergem, no tocante a questões doutrinárias de importância? E qual o motivo por que os não-espíritas continuam a tratar o Espiritismo com a maior incompreensão? Note-se que não nos referimos a adversários, pois estes têm a sua razão, mas aos não-espíritas. Parece-nos que a explicação, para os dois casos, é a mesmo. O Espiritismo é uma doutrina do futuro. À maneira do Cristianismo, abre caminho no mundo, enfrentando a incompreensão de adeptos e não-adeptos. Em primeiro lugar, há o problema da posição da doutrina. Uns a encaram como sistematização de velhas superstições; outros, como tentativa frustrada de elaboração científica; outros, como ciência infusa, não organizada; outros ainda, como esboço impreciso de filosofia religiosa; outros como mais uma seita, entre as muitas seitas religiosas do mundo. Para a maioria de adeptos e não-adeptos, o Espiritismo se apresenta como simples crença, espécie de religião e superstição, ao mesmo tempo, eivada de resíduos mágicos.
Ao contrário de tudo isso, porém, o Espiritismo, segundo a definição de Kardec e dos seus principais continuadores, constitui a última fase do processo do conhecimento. Última, não no sentido de fase final, mas da que o homem pôde atingir até agora, na sua lenta evolução através do tempo. É evidente que se trata do conhecimento em sentido geral, não limitado a um determinado aspecto, não especializado. Nesse sentido geral, o Espiritismo aparece como uma síntese dos esforços humanos para compreensão do mundo e da vida. Justifica-se assim, que haja dificuldade para sua compreensão, apesar da clareza da estrutura doutrinária da codificação. De um lado, o povo não pode abarcá-lo na sua totalidade, contentando-se com seu aspecto religioso; de outro, os especialistas, não admitem a sua natureza sintética; e de outro, ainda, os preconceitos culturais levantam numerosas objeções aos seus princípios.
No capítulo primeiro de A Gênese, número 18, Kardec explica que o Espiritismo, do ponto de vista científico, tem por objeto um dos dois elementos constitutivos do universo, que é o espírito. O outro elemento é a matéria. Como ambos se entrelaçam, para a constituição do todo universal, o Espiritismo "toca forçosamente na maioria das ciências", ou seja, está necessariamente ligado ao desenvolvimento das ciências. Assim sendo, esclarece o codificador: "Ele não poderia aparecer senão depois da elaboração delas, e surgiu por força das coisas, da impossibilidade de tudo explicar-se somente com a ajuda das leis da matéria."
Léon Denis, sucessor e continuador de Kardec, observa em seu livro Le Genie Celtique e Le Monde Invisible, o seguinte: "Pode dizer-se que a obra do Espiritismo é dupla: no plano terreno ela tende a reunir e a fundir, numa síntese grandiosa, todas as formas, até aqui dispersas e muitas vezes contraditórias, do pensamento e a da ciência. Num plano mais amplo, une o visível e o invisível, essas duas formas da vida, que, na realidade, se interpenetram e se completam, desde o princípio das coisas". Logo a seguir, como prevenindo a objeção de dualismo que se poderia fazer, Denis acentua: "No seu desenvolvimento, ele demonstra que o nosso mundo e o Lado-de-Lá não estão separados, mas entrosados um no outro, constituindo assim um todo harmônico".
Os estudantes de Espiritismo sabem que muitos outros trechos, tanto de Kardec quanto dos seus seguidores, podem ser citados, para afirmar a tese da natureza sintética da doutrina, bem como a sua posição de última fase do processo do conhecimento. Lembramos particularmente a definição da doutrina em O que é o Espiritismo, de Kardec, sobre a qual voltaremos mais tarde.
Basta-nos, no momento, esta colocação do problema, para justificar a nossa tentativa de oferecer uma visão histórica do desenvolvimento espiritual do homem, como a forma mais apropriada de introdução ao estudo da doutrina.
Foi o próprio Kardec quem criou a disciplina que procuramos desenvolver neste curso, tanto com a "Introdução ao estudo da doutrina espírita" que abre O Livro dos Espíritos, quanto com o Principiante Espírita. O nosso curso não dispensa, antes requer o estudo desses trabalhos do codificador. Mas é evidente que a introdução a qualquer ramo do conhecimento, como explica o filósofo Julián Marias , no caso particular da "Introdução à Filosofia", exige sempre novas perspectivas, de acordo com o fluir do tempo. A introdução, diz Marias, é o agora, o circunstancial, o ato de introduzir alguém em alguma coisa. Essa alguma coisa seja a Filosofia ou seja, o Espiritismo, é uma realidade histórica uma coisa que existe de maneira concreta.
Sendo o Espiritismo uma realidade histórica, afinada pelo codificador e seus sucessores, tem ele o seu passado e o seu presente, como terá o seu futuro. No tempo de Kardec, introduzir alguém no estudo do Espiritismo era introduzi-lo numa realidade nascente, numa verdadeira problemática em ebulição, num processo histórico em princípio de definição, e principalmente "numa nova ordem de idéias". Hoje, é introduzir esse alguém num processo já definido, e não apenas numa ordem de idéias, mas também no quadro histórico, em que essa ordem surgiu. Dessa maneira, é introduzi-la também na própria introdução de Kardec. Esse o motivo por que escrevemos, para a nossa tradução de O Livro dos Espíritos, editado pela FEESP uma introdução à obra.
Sem o exame histórico do problema mediúnico, por exemplo, os estudantes de hoje estarão ameaçados de flutuar no abstrato. Introduzindo-se numa ordem de idéias, sem o conhecimento de suas raízes históricas, arriscam-se a confundir, como fazem os leigos, mediunismo e Espiritismo, ou seja, o processo mediúnico de desenvolvimento espiritual do homem, com o Espiritismo. Arriscam-se, ainda mais, a aturdir-se com fatos mediúnicos rudimentares, considerando-os, por sua aparência extravagante, como novidades. Por outro lado, dificilmente compreenderão a aparente contradição existente no fato de ser o Espiritismo, ao mesmo tempo, uma doutrina moderna e um processo histórico provindo das eras mais remotas da humanidades. Existe ainda o problema religioso, e particularmente o das ligações do Espiritismo com o Cristianismo, que somente uma introdução histórica pode esclarecer.
Por tudo isso, foi que nos propusemos a dar este curso, à convite da União da Mocidade Espírita de S. Paulo - a partir do "horizonte primitivo", ou seja, das manifestações mediúnicas entre os homens primitivos, examinando as fases históricas que nos conduziram até ao momento presente. Para isso, servimo-nos da bibliografia doutrinária, como fundamental, e de outros livros, de reconhecido valor cultural, como subsidiários. Daremos a indicação bibliográfica, para facilitar aos interessados maior aprofundamento do assunto.

J. Herculano Pires - O Espírito e o Tempo

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