21 outubro 2010

O TRABALHO

"Todo espírito que deseja progredir trabalhando na obra de solidariedade universal recebe dos espíritos mais elevados uma missão particular, apropriada às suas aptidões e ao seu grau de adiantamento.
Alguns têm por tarefa acolher os espíritos em seu retorno à vida espiritual, guiá-los, ajudá-los a se desprenderem dos fluidos espessos que os envolvem; outros são encarregados de consolar, instruir as almas sofredoras e atrasadas. Espíritos de químicos, físicos, naturalistas, astrônomos, prosseguem em suas pesquisas, estudam os mundos, suas superfícies, suas profundezas ocultas, atuam em todos os lugares sobre a matéria sutil, que fazem passar por preparações, modificações destinadas a obras que a imaginação humana teria dificuldades em imaginar. Outros se aplicam às artes, ao estudo do belo sob todas as suas formas. Espíritos menos evoluídos auxiliam os primeiros em suas tarefas variadas e lhes servem de auxiliares.

Um grande número de espíritos se consagra aos habitantes da Terra e dos outros planetas, estimulando-os em suas pesquisas, fortalecendo os ânimos abatidos, guiando os hesitantes pelo caminho do dever. facilidades desconhecidas na Terra; cada um encontra seu lugar nesse soberbo campo de ação, nesse vasto laboratório universal. Por todos os lados, tanto na amplidão como nos mundos, objetos de estudo e de trabalho, meios de elevação, de participação na obra divina, oferecem-se à alma laboriosa".

LIVRO: O PROBLEMA DO SER, DO DESTINO E DA DOR.

Autor: Léon Denis

18 outubro 2010

GENTE FAZENDO SERÃO

Hermínio C. Miranda

Ao credenciar a equipe de 70 pessoas para divulgar os conceitos básicos de Sua filosofia de vida, o Cristo lamentou que não houvesse maior disponibilidade de servidores. Ante a enormidade da tarefa a realizar, a vastidão da seara, a farta colheita de almas sedentas de luz e paz, que era aquele pequenino grupo de seres, já de si mesmos tão precários e frágeis, que Ele mandava como ovelhas para a convivência com lobos?

Não são estes, adverte-nos a Bíblia de Jerusalém, os que costumavam seguir à frente para "prepararem hospedagem e alimento" como está em Lucas 9:52, mas "para lhe servirem de precursores espirituais".

Para isso Ele recomenda aos próprios servidores que peçam a Deus - o Dono da Colheita - que envie mais trabalhadores, cada vez mais, para que quanto antes se implante na terra o reino de Deus.

E assim tem sido feito. No entanto, as mensagens que nos chegam do Mundo Espiritual nos dizem, reiteradamente, que a seara é cada vez mais ampla, as necessidades cada vez mais agudas e persiste a escassez de servidores, enquanto a colheita se perde, em grande parte, pelos campos da vida. Vemos, também, quantos daqueles que ainda há pouco estavam conosco e partiram, voltarem para dizer de mil maneiras diferentes a mesma coisa de sempre, ou seja, que poderiam ter feito um pouco mais ou um pouco melhor o que fizeram, ou poderiam ter feito o que deixaram de fazer.

Enquanto isso, dizem-nos Amigos Espirituais que inúmeros servidores estão sendo enviados, perfeitamente programados para as tarefas renovadoras, dotados de recursos pessoais preciosos, comprometidos com as mais nobres realizações do bem e, não obstante, aqui chegados, perdem-se no tumulto do mundo, nos envolvimentos, nos arrastamentos, nas ilusões, no desencanto. E ainda que encaminhados, dirigidos à Seara Espírita, buscam nela não o serviço para o qual se prepararam, muitas vezes, humilde e singelo, mas as posições, o destaque, o brilho, a posse, a liderança para a qual não estão preparados e na qual já fracassaram repetidamente. Ou nada fazem e ficam a contemplar o vai-e-vem dos que fazem.

Os desvios são muitos. Em cada curva da estrada espreita uma forma diferente de tentação; em cada esquina da vida, um apelo sutil e mentiroso que redunda em fracasso da tarefa programada.

E os testemunhos? Beleza física, riqueza, posição social, inteligência, oportunidades de cultivo da mente, o verbo fácil e eloqüente, a palavra fluente...E começam a pensar que isso lhes foi dado para brilharem, para se mostrarem, para conquistarem maior soma de poder, em termos humanos. Não que a grandeza seja um erro em si mesma. Quem é maior do que o Cristo em nosso contexto humano? Só que a grandeza não se destina a oprimir, é um instrumento a mais de trabalho, para servir.

Por isso tudo nos dizia ainda há pouco um Amigo Espiritual, que os Planos mais altos da vida decidiram reter um pouco mais na Terra aqueles trabalhadores que estejam empenhados em alguma tarefa útil, conscientes de suas responsabilidades e empenhados em se desincumbirem dela da melhor maneira possível. A vida lhes vai sendo prorrogada, estendida até os limites do possível e novas tarefas lhes estão sendo atribuídas. Muitos deles já ultrapassaram de muito a época prevista para o ansiado retorno à Pátria Espiritual. Já poderiam estar gozando as delícias de uma existência livre das agonias e limitações da matéria. Os corpos físicos estão cansados e cheios de mazelas próprias da idade. São muitas as saudades de companheiros amados que os aguardam no plano mais sutil - aquilo que costumo chamar de "saudade do futuro"... Já o crespúsculo de suas vidas desceu sobre eles, mas o Dono da Colheita lhes pede que trabalhem mais algumas horas, em regime de serão, pois há enorme carência de gente disposta a empunhar as ferramentas para a colheita abundante, o fruto maduro, a flor no auge da beleza e perfume...

E tanto quanto a humana - ou mais ainda que ela, infinitamente mais - a transcendental legislação trabalhista de Deus prescreve compensação adicional para os que fazem serão, pois estão mais cansados, esforçam-se mais e se privam da convivência dos seus amores e adiam o justo repouso, mas por isso, também colhem mais. Quando muitos já deixaram a seara e muitos outros nem mesmo vieram trabalhar, embora já contratados e "de carteira assinada", aqueles poucos que ali estão persistem e seguem servindo...

Citar nomes seria expor modéstias e magoar humildades que preferem o silêncio, mas qualquer um de nós pode citar pelo menos uma dezena de velhos servidores cansados, doentes, envelhecidos, alquebrados mesmo, que continuam a trabalhar incessantemente, enquanto desce a noite...

Estão fazendo serão. Não porque a paga seja maior, mas porque sentem o peso da responsabilidade e ouvem no fundo do coração o apelo de quem tanto fez e continua a fazer por nós e lhes pede um pouco mais de paciência e trabalho.

Por isso dizia Paulo a seus irmãos de raça (Heb, 12:12):

- Portanto, tornai a levantar as mãos cansadas e os joelhos desconjuntados."

E a Timóteo (II Tim. 2:15):

- Procura apresentar-te a Deus como um homem provado, um trabalhador que não tem de que se envergonhar, que dispensa com retidão a palavra da verdade."

Veja bem o leitor distraído da epístola: o trabalhador deve voltar não orgulhoso da tarefa realizada, não exibindo títulos e glórias, mas concluída a tarefa da qual não se envergonhe.

"... mas o dono da colheita lhes pede que trabalhem mais algumas horas, em regime de serão..."

Extraído da revista Presença Espírita - abril de 1982.

17 outubro 2010

BEM-AVENTURADOS OS QUE TÊM FECHADOS OS OLHOS

Capítulo : Ninguém poderá ver o Reino de Deus se não Nascer de Novo

Tópico : Bem-aventurados os que têm fechados os olhos

20. Meus bons amigos, para que me chamastes? Terá sido para que eu imponha as mãos sobre a pobre sofredora que está aqui e a cure? Ah! que sofrimento, bom Deus! Ela perdeu a vista e as trevas a envolveram. Pobre filha! Que ore e espere.

Não sei fazer milagres, eu, sem que Deus o queira. Todas as curas que tenho podido obter e que vos foram assinaladas não as atribuais senão àquele que é o Pai de todos nós. Nas vossas aflições, volvei sempre para o céu o olhar e dizei do fundo do coração: “Meu Pai, cura-me, mas faze que minha alma enferma se cure antes que o meu corpo; que a minha carne seja castigada, se necessário, para que minha alma se eleve ao teu seio, com a brancura que possuía quando a criaste.”

Após essa prece, meus amigos, que o bom Deus ouvirá sempre, dadas vos serão a força e a coragem e, quiçá, também a cura que apenas timidamente pedistes, em recompense da vossa abnegação.

Contudo, uma vez que aqui me acho, numa assembléia onde principalmente se trata de estudos, dir-vos-ei que os que são privados da vista deveriam considerar-se os bem aventurados da expiação. Lembrai-vos de que o Cristo disse convir que arrancásseis o vosso olho se fosse mau, e que mais valeria lançá-lo ao fogo, do que deixar se tornasse causa da vossa condenação.

Ah! quantos há no mundo que um dia, nas trevas, maldirão o terem visto a luz! Oh! sim, como são felizes os que, por expiação, vêm a ser atingidos na vista! Os olhos não lhes serão causa de escândalo e de queda; podem viver inteiramente da vida das almas; podem ver mais do que vós que tendes límpida a visão!… Quando Deus me permite descerrar as pálpebras a algum desses pobres sofredores e lhes restituir a luz, digo a mim mesmo: Alma querida, por que não conheces todas as delicias do Espírito que vive de contemplação e de amor? Não pedirias, então, que se te concedesse ver imagens menos puras e menos suaves, do que as que te é dado entrever na tua cegueira!

Oh! bem-aventurado o cego que quer viver com Deus. Mais ditoso do que vós que aqui estais, ele sente a felicidade, toca-a, vê as almas e pode alçar-se com elas às esferas espirituais que nem mesmo os predestinados da Terra logram divisar. Abertos, os olhos estão sempre prontos a causar a falência da alma; fechados, estão prontos sempre, ao contrário, a fazê-la subir para Deus.

Crede-me, bons e caros amigos, a cegueira dos olhos é, muitas vezes, a verdadeira luz do coração, ao passo que a vista é, com freqüência, o anjo tenebroso que conduz à morte. Agora, algumas palavras dirigidas a ti, minha pobre sofredora. Espera e tem ânimo! Se eu te dissesse: Minha filha, teus olhos vão abrir-se, quão jubilosa te sentirias! Mas, quem sabe se esse júbilo não ocasionaria a tua perda! Confia no bom Deus, que fez a ventura e permite a tristeza. Farei tudo o que me for consentido a teu favor; mas, a teu turno, ora e, ainda mais, pensa em tudo quanto acabo de te dizer. Antes que me vá, recebei todos vós, que aqui vos achais reunidos, a minha bênção.

Vianney, cura d’Ars. (Paris, 1863.)

Estudo:

Vemos na lição que o que chamamos ou pensamos ser infortúnio, azar, má formação genética ou doenças de nascença seja qual for o nome dado, são expiações para as criaturas que a possuem.

Não ! Não é um castigo uma punição, muito pelo contrário é uma lição que serve para valorizar o que em passado remoto não demos muita importância com o mal uso que fizemos. Ë fácil colocarmos a culpa na genética, em Deus, mas é quase impossível nos resignarmos com o fato que foi provocado por nós mesmos.

Sabemos que nos infinitos graus de evolução em que se encontra a humanidade cada um possui sua má formação genética, seja no campo físico ou no campo moral que é sem dúvida a forma em que a grande maioria da humanidade se enquadra.

Como é fácil jogarmos os infortúnios sobre Deus sobre o acaso mas nunca sobre nossos atos e atitudes. Em nosso dia a dia praticamos atos insanos, como brigas no transito, brigas em casa por bobagens, desarmonias no trabalho, ajudamos em uma fofoquinha ali, outras vezes prejudicamos com um comentário a uma pessoa com quem não simpatizamos entre muito outros atos que praticamos.

Nesse momento muitos os que lêem essas letras diram “eu não, nunca fiz isso”, pergunto será?

Puxe na sua consciência. Uns diram “mas vou ter que esquecer para me rearmonizar?” sim irá e sabe porque ? pelo simples fato de não estar preparado ainda psicologicamente, porque se possuísse tal preparo a rearmonização viria de imediato. “Mas isso não seria mais lógico?” Não, porque por muito menos que esse fato que você pensou seu campo emocional se desequilibrou.

Deus prepara cada um de nós para o aprendizado, para como dizem na Bíblia “o fardo”, aliás na própria bíblia nos mostra que como Jesus diz “A cada um segundo suas obras” e completa amenizando dizendo “Deus não dá um fardo maior do que podemos carregar”. Por isso, os irmãos que reencarnam com certas digamos “imperfeições no campo físico” podem se sentir seres fortalecidos pelo AMOR de Deus, pois possuem a maturidade, a capacidade psicológica de se rearmonizar com esse “passado pretérito”.

“A porque ele ficou assim …porque ele ficou assado”… olha os motivos são o que menos importa, o mais importante para esses irmãos é o agora a capacidade de resignação, de se amarem, de compreenderem que não são vítimas, que o momento que atravessam é de aprendizado e resignação, isso contribuirá para sua elevação moral e espiritual.

16 outubro 2010

CORPO FÍSICO

"E senhor das experiências adquiridas que lhe despontam do ser, em forma de tendências e impulsos, recebe o Espírito um corpo inteiramente novo, em olvido temporário, mas não absoluto, das experiências pregressas, corpo com o qual será defrontado pelas circunstâncias favoráveis ou não do caminho que deve percorrer..." - André Luiz

Paternidade e maternidade, raça e pátria, lar e sistema consanguíneo são conjugados com previdente sabedoria para que não faltem ao reencarnante todas as possibilidades necessárias ao êxito no empreendimento que se inicia.
E senhor das experiências adquiridas que lhe despontam do ser, em forma de tendências e impulsos, recebe o Espírito um corpo inteiramente novo, em olvido temporário, mas não absoluto, das experiências pregressas, corpo com o qual será defrontado pelas circunstâncias favoráveis ou não do caminho que deve percorrer, para prosseguir na obra digna em que se haja empenhado ou para retificar as lições em que haja falido.
Nessas diretrizes, nem sempre estará integrado normalmente na posição em que a vida mental e o campo somático se mostrem em sinergia ideal.
Às vezes, deve sofrer mutilações e enfermidades benéficas, inibições e dificuldades orgânicas de caráter inevitável, porque, de aprendizado a aprendizado e de tarefa a tarefa, quanto o aluno de estágio a estágio para as grandes metas educativas,é que se levantará, vitorioso, para a ascensão à Imortalidade Celeste.

(Evolução em Dois Mundos, cap. XIX, André Luiz/Chico Xavier/Waldo Vieira, FEB)

FORMA CARNAL - Todavia, assim como o germe para desenvolver-se no ovo precisa aquecer-se ao calor da ave que o acolha maternalmente ou do ambiente térmico apropriado, no recinto da chocadeira, e assim como a semente, para libertar os princípios germinativos do vegetal gigantesco em que se converterá, não prescinde do berço tépido no solo, os Espíritos desencarnados, sequiosos de reintegração no mundo físico, necessitam do vaso genésico da mulher que com eles se harmoniza, nas linhas da afinidade e, conseqüentemente, da herança, vaso esse a que se aglutinam, mecanicamente, e onde, conforme as leis de reencarnação, operam em alguns dias todas as ocorrências de sua evolução nos reinos inferiores da Natureza.
Assimilando recursos orgânicos com o auxílio da célula feminina, fecundada e fundamentalmente marcada pelo gene paterno, a mente elabora, por si mesma, novo veículo fisiopsicossomático, atraindo para os seus moldes ocultos as células físicas a se reproduzirem por cariocinese, de conformidade com a orientação que lhes é imposta, isto é, refletindo as condições em que ela, a mente desencarnada, se encontra.
Plasma-se-lhe, desse modo, com a nova forma carnal, novo veículo ao Espírito, que se refaz ou se reconstitui em formação recente, entretecido de células sutis, veículo este que evoluirá igualmente depois do berço e que persistirá depois do túmulo.

(Evolução em Dois Mundos, cap. XII, André Luiz/Chico Xavier/Waldo Vieira, FEB)

15 outubro 2010

A ARTE LITERÁRIA

Carlos Bernardo Loureiro

Duas eras estabeleceram os fundamentos da Arte Literária, conforme o Prof. Soares Amora (“Teoria da literatura”), citado por Hênio Tavares em sua obra “Teoria Literária”, Editora Bernardo Alvares S/A: a clássica e a moderna. A primeira vai dos sofistas ao século XVIII, e a Segunda do romantismo à atualidade.
Os componentes conceituais da era clássica têm um caráter amplo e são identificados nas obras de Empédocles, Platão, Aristóteles, Plotino, Cícero, Horácio, Sêneca, Quintiliano, Tácito, Longino, Scaligero, Castel-Vetro, Patrizzi, Boileau.
Modernamente, destacam-se os teóricos e críticos literários – Vico, Baum-Garten, Kant, Hegel, De Sanctis, Taine, Bergson e B. Croce.
Eis os conceitos propostos na era clássica:
a)amplo: “A arte literária consiste na realização dos preceitos estéticos da invenção, da disposição e da elocução”.
Essas três operações clássicas da arte de escrever – informa Hênio Tavares – foram criadas pelos sofistas: a invenção trata da escolha do assunto; a disposição encarrega-se de coordená-la numa ordem lógica e atraente, dando ao trabalho movimento de unidade; a elocução prendendo-se à correção, clareza e harmonia de língua, estiliza a obra, proporcionando-lhe forma externa. Destarte, qualquer obra que perfi-lhe tais processos será considerada Literatura seja um livro de poesia ou de filosofia. Depreende-se que esse conceito peca por unilateralidade, omitindo o conteúdo da obra.
b)restrito: “A arte literária é a arte que cria, pela palavra, uma imitação da realidade”. Neste caso, não é a forma, mas a natureza do conteúdo da obra que identifica a arte literária. “A imitação em arte – elucida Hênio Tavares – deriva de atitudes como o Realismo e o Idealismo. O Realismo procura imitar diretamente a natureza, não raro caindo no Naturalismo. Já o Idealismo serve-se da natureza indiretamente, na qual a realidade da natureza contingencial da vida é deformada para melhor ou pior”.

Concluindo

“A arte é portanto imitação, porém recriação da natureza em qualquer sentido”.
Aristóteles já lançava luz sobre o assunto:
“... Aqueles que expõem, através do verso, assuntos de medicina, ou de física, são comumente denominados poetas; entretanto, nada há de comum entre Homero e Empédocles, senão o terem ambos escrito em verso. Desse modo, converia denominar a um, poeta, e a outro, naturalista”.
Na era moderna são propostos os seguintes conceitos:
a)em sentido lato: “A literatura é o conjunto da produção escrita”. O conceito é vago. É, na concepção de alguns críticos, “um vaguíssimo conceito cultural, através do qual todo o conhecimento fosse qual fosse a sua natureza – científica, filosófica ou espiritual -, seria literária”.
Destarte, literatura seria, no sentido amplo (lato sensu), toda e qualquer manifestação do sentimento ou do pensamento por meio da palavra, dando ensejo a que De Bonald a chamasse de “expressão da sociedade “. Depreende-se, desse modo, diz Hênio Tavares, que “qualquer obra em prosa e verso, de conteúdo artístico ou científico, que envolva conhecimento da vida e dos homens, será literatura. Isto explica – conclui – a extensão de certas obras como a histórias da literatura portuguesa e da literatura brasileira, de Teófilo Braga e Silvo Romero, respectivamente”.
A propósito, Wellek e Warren, dão-nos um exemplo na “Introduction to the Literary History of the Fifiteenth, Sixteenth and Seventeenth Centuries”, de Henry Hallam, que consubstancia livros de teologia, de lógica, de jurisprudência, de matemática.
No sentido restrito: “A arte literária é, verdadeiramente, a ficção, a criação de uma supra-realidade com os dados profundos, singulares da intuição do artista”.
A arte é ficção, que pode ser verossímil e inverossímil. A ficção se encontra nos cernes das mais importantes obras literárias. E se constata que a realidade sensível e racional.
“A intuição artística – afirma Soares Amora -, no campo da imaginação, da idealização, dos símbolos, do “supra-realismo”, tem criado obras inteiramente falsas se as quisermos identificar com a realidade sensível e racional, mas verdadeiras como obras de emoção e beleza”.
Cita, à guisa de exemplo, o romance “IRACEMA”, de José de Alencar, “obra falsa do ponto de vista científico (etnográfico), filosófico, histórico; no entanto, profundamente verdadeira do ponto de vista estético, porque comovente e bela”.
O que realmente distingui uma obra de arte é a sua realidade estética, sempre atrelada à concepção de escola: clássica, romântica, realista, simbolista etc.
Dizia, então, Alceu Amororo Lima (“A Estética Literária e o Crítico, 1954). “A palavra, em literatura, não tem o nosso valor da palavra na vida corrente. A palavra, na vida cotidiana ou nas atividades não-literárias (mesmo quando artísticas, de outro gênero) tem valor utilitário. Na literatura tem valor ontológico, se pudermos assim dizer. Sendo arte-de-palavra, faz a literatura de seu meio de expansão seu próprio fim. Quando se abusa desse processo, caímos na má literatura, no verbalismo, simples objeto de uso, simples meio de comunicação”.
Conclui-se, então, que a literatura se baseará tanto no estudo do conteúdo (Gehalt) como nos problemas gerados pela forma (Gestalt).
“Arte literária, finaliza Hênio Tvares, é a ficção ou a criação de uma supra-realidade pela intuição do artista, mediante a palavra expressivamente estilizada”.
A Arte Literária Espírita pode perfeitamente adequar-se a esse processo, conquanto deva preservar as suas intrínsecas e peculiares implicações. O autor espiritual, permiti-nos deduzir, já vivencia, ele próprio, uma supra-realidade, entes jamais cogitada. Os conceitos e valores sofreram, pois, francas e profundas reavaliações. A sua visão de vida e dos problemas da vida é diferenciada, é mais ampla do que ele, por um determinado lapso de tempo vivenciou, e, aí, absorveu uma gama considerável de condicionamentos. A literatura como “ânsia de imortalidade” de Raul Castagnino-in – “qué es Literatura?” É aquele desejo insopitável que reside na ânsia da Espírito humano (ecos palingenésicos), de sobrevivência à morte. Em Arte, esse meio se consubstancia nas idéias de glória, de consagração, de imortalidade, de que dariam imorredouros exemplos um Horácio, um Camões e de tantos outros célebres cultores da Arte, como essência da vida...

14 outubro 2010

RELIGIÃO : A idade média é aqui

Como é de praxe em países de Terceiro Mundo, onde prevalecem o Mensalão, os vôos das malas recheadas de Reais e as cuecas voadoras recheadas de dólares, a religião faz o maior sucesso. Além do mais, somente aqui se encontram dízimos com notas seriadas...

Assim, a religião no Brasil vai desempenhando um papel bem ao gosto da ambição e da ânsia de poder dos seus responsáveis. Utilizam-se da figura de Jesus para legitimar os seus malfadados anseios. A verdade é que a religião no mundo ocidental está completamente deslocada e desmoralizada. Em seus estertores, os religiosos teimam em afirmar que ela é obra de deus. Parece que isso não é verdade. E se o for, esse deus é tão irresponsável quanto os criadores da religião.

Dizem que deus é perfeito. Mas ele não conseguiu imprimir essa perfeição à religião. O certo é que, convenhamos, ela foi criada pelo próprio homem, e a História Ocidental prova essa assertiva. Desse modo, os povos do Ocidente foram redondamente ludibriados por essas criaturas que se diziam e continuam se dizendo representantes de deus na face deste sofrido planeta.

Acontece, prezados internautas, que nós não queremos ser a “palmatória do mundo”, longe disso! Mas, não podemos concordar com o que vem acontecendo no movimento espírita da cidade de Salvador. Querem impor, até com certa truculência, a idéia de que o Espiritismo é religião. Tem até SACERDOTE ESPÍRITA (o que Freud não explica, mas a fraude, sim).

Tudo isso, minha gente, é fruto da ignorância e, sobretudo, da obsessão. Aliás, desde Olímpio Teles de Menezes (fundador do primeiro centro espírita na América Latina – na cidade de Salvador), que os “habitantes das sombras”, como dizem os Espíritos mentores, vêm tentando denegrir a imagem do Espiritismo com o fim de erradicá-lo, não só das terras baianas, mas brasílicas!

Finalmente, estão conseguindo. Como, infelizmente, era de se esperar, porquanto a vaidade e a sede de poder se transformaram em sedutores instrumentos de que se utilizam os obsessores, predominantemente representantes do clero sempre inconformados com a lógica esmagadora do Espiritismo. Não foi sem razão que Leopoldo Machado, Cairbar Schutel, Herculano Pires, Alfredo Miguel, Deolindo Amorim e tantos outros espíritas de escol se posicionaram, quando (re)encarnados, contra a interferência do religiosismo nas hostes espiritistas.

Nós, do TELMA, sentimo-nos sozinhos nesta luta sem quartel contra os inimigos da doutrina codificada por Allan Kardec, que sempre a considerou uma “ciência que trata da origem dos Espíritos, bem como de suas relações com o mundo corpóreo”. Mas, “a velha guarda morre, mas não se rende!”. Enquanto existir o TELMA, e sempre existirá, estaremos vigilantes, refutando todas as investidas desses terríveis desafetos do Espiritismo.

Que um deus nos acuda!

12 outubro 2010

VAMPIRISMO ESPIRITUAL

"Muitos acometem os adversários que ainda se entrosam no corpo terrestre,
empolgando-lhes a imaginação com formas mentais monstruosas,
operando perturbações que podemos classificar como "infecções fluídicas"
e que determinam o colapso cerebral com arrasadora loucura."

PARASITISMO NOS REINOS INFERIORES - Comentando as ocorrências da obsessão e do vampirismo no veículo fisiopsicossomático, é importante lembrar os fenômenos do parasitismo nos reinos inferiores da Natureza.
Sem nos reportarmos às simbioses fisiológicas, em que microorganismos se albergam no trato intestinal dos seus hospedadores, apropriando-se-lhes dos sucos nutritivos, mas gerando substâncias úteis à existência dos anfitriões, encontraremos a associação parasitária, no domínio dos animais, à maneira de uma sociedade, na qual um das partes, quase sempre após insinuar-se com astúcia, criou para si mesma vantagens especiais, com manifesto prejuízo para a outra, que passa, em seguida, à condição de vítima.
Em semelhante desequilíbrio, as vítimas se acomodam, por tempo indeterminado, à pressão externa dos verdugos; contudo, em outras eventualidades, sofrem-lhe a intromissão direta na intimidade dos próprios tecidos, em ocupação impertinente que, às vezes, se degenera em conflito destruidor e, na maioria dos casos, se transforma num acordo de tolerância, por necessidade de adaptação, perdurando até a morte dos hospedeiros espoliados, chegando mesmo a originar os remanescentes das agregações imensamente demoradas no tempo, interferindo nos princípios da hereditariedade, como raízes do conquistador, a se entranharem nas células que lhes padecem a invasão nos componentes protoplasmáticos, para além da geração em que o consórcio parasitário começa.
Em razão disso, apreciando a situação dos parasitas, perante os hospedeiros, temo-los por ectoparasitas, quando limitam a própria ação às zonas de superfície, e endoparasitas, quando se alojam nas reentr6ancias do corpo a que se impõem.
Não será lícito esquecer, porém, que toda simbiose exploradora de longo curso, principalmente a que se verifica no campo interno, resulta de adaptação progressiva entre o hospedador e o parasita, os quais, não obstante reagindo um sobre o outro, lentamente concordam na sociedade em que persistem, sem que o hospedador considere os riscos e perdas a que se expõe, comprometendo não apenas a própria vida, mas a existência da própria espécie.

OBSESSÃO E VAMPIRISMO - Em processos diferentes, mas atendendo aos mesmos princípios de simbiose prejudicial (Vide "Parasitismo nos Reinos Inferiores", mesmo cap.), encontramos os circuitos de obsessão e de vampirismo entre encarnados e desencarnados, desde as eras recuadas em que o espírito humano, iluminado pela razão, foi chamado pelos princípios da Lei Divina e renunciar ao egoísmo e à crueldade, à ignorância e ao crime.
Rebelando-se, no entanto, em grande maioria, contra as sagradas convocações, e livres para escolher o próprio caminho, as criaturas humanas desencarnadas, em grande número, começaram a oprimir os companheiros da retaguarda, disputando afeições e riquezas que ficavam na carne, ou tentando empreitadas de vingança e delinqüência, quando sofriam o processo liberatório da desencarnação em circunstâncias delituosas.
As vítimas de homicídio e violência, brutalidade manifesta ou perseguição disfarçada, fora do vaso físico, entram na faixa mental dos ofensores, e conhecendo-lhe a enormidade das faltas ocultas, e, ao invés do perdão, com que se exonerariam da cadeia de trevas, empenham-se em vinditas atrozes, retribuindo golpe a golpe e mal por mal.

INFECÇÕES FLUÍDICAS - Muitos acometem os adversários que ainda se entrosam no corpo terrestre, empolgando-lhes a imaginação com formas mentais monstruosas, operando perturbações que podemos classificar como "infecções fluídicas" e que determinam o colapso cerebral com arrasadora loucura.
E ainda muitos outros, imobilizados nas paixões egoísticas desse ou daquele teor, descansam em pesado monoideísmo, ao pé dos encarnados, de cuja presença não se sentem capazes de afastar-se.
Alguns, como os ectoparasitas temporários, procedem à semelhança dos mosquitos e dos ácaros, absorvendo as emanações vitais dos encarnados que com eles se harmonizam, aqui e ali; mas outros muitos, quais endoparasitas conscientes, após se inteirarem dos pontos vulneráveis de suas vítimas, segregam sobre elas determinados produtos, filiados ao quimismo do Espírito, e que podemos nomear como simpatinas ou aglutininas mentais, produtos esses que, sub-repticiamente, lhes modificam a essência dos próprios pensamentos a verterem, contínuos, dos fulcros energéticos do tálamo, no diencéfalo.
Estabelecida essa operação de ajuste, que os desencarnados e encarnados, comprometidos em aviltamento mútuo, realizam em franco automatismo, à maneira dos animais em absoluto primitivismo nas linhas da Natureza, os verdugos comumente senhoreiam os neurônios do hipotálamo, acentuando a própria dominação sobre o feixe amielínico que liga o córtex frontal, controlando as estações sensíveis do centro coronário que aí se fixam para o governo das excitações, e produzem nas suas vítimas, quando contrariados em seus desígnios, inibições de funções viscerais diversas, mediante influência mecânica sobre o simpático e o parassimpático. Tais manobras, em processos intrincados de vampirismo, prestigiam o regime de medo ou de guerra nervosa nas criaturas de que se vingam, alterando-lhes a tela psíquica ou impondo prejuízos constantes aos tecidos somáticos.

PARASITAS OVÓIDES - Inúmeros infelizes, obstinados na idéia de fazerem justiça pelas próprias mãos ou confiados a vicioso apego, quando desafivelados do carro físico, envolvem sutilmente aqueles que se lhe fazem objeto de calculada atenção e, auto-hipnotizados por imagens de afetividade ou desforço, infinitamente repetidas por eles próprios, acabam em deplorável fixação monoideísta, fora das noções de espaço e tempo, acusando, passo a passo, enormes transformações na morfologia do veículo espiritual, porquanto, de órgãos psicossomáticos retraídos, por falta de função, assemelham-se a ovóides, vinculados às próprias vítimas que, de modo geral, lhes aceitam, mecanicamente, a influenciação, à face dos pensamentos de remorso ou arrependimento tardio, ódio voraz ou egoísmo exigente que alimentam no próprio cérebro, através de ondas mentais incessantes.
Nessas condições, o obsessor ou parasita espiritual pode ser comparado, de certo modo, à Sacculina carcini, que, provida de órgãos perfeitamente diferenciados na fase de vida livre, enraiza-se, depois, nos tecidos do crustáceo hospedador, perdendo as caracterísitcas morfológicas primitivas, para converter-se em massa celular parasitária.
No tocante à criatura humana, o obsessor passa a viver no clima pessoal da vítima, em perfeita simbiose mórbida, absorvendo-lhe as forças psíquicas, situação essa que, em muitos casos, se prolonga para além da morte física do hospedeiro, conforme a natureza e a extensão dos compromissos morais entre credor e devedor.


(Evolução em Dois Mundos, cap. XV, André Luiz/Chico Xavier/Waldo Vieira, FEB)

11 outubro 2010

SEPARAÇÃO ENTRE CÔNJUGES ESPIRITUAIS

Ocorre separação entre cônjuges espirituais?

Pode acontecer, por exemplo, que as autoridades superiores escolham um dos cônjuges para serviço particular entre os homens, atendendo a qualidades especiais que possua e com que deva satisfazer a questões e eventualidades terrestres.
Além disso, esse ou aquele cônjuge, após venturoso estágio na esfera superior, necessita regressar aos círculos carnais para experiências difíceis no resgate de compromissos determinados.
Em ambas as modalidades de separação compreensível e justa, o companheiro ou a companheira em condição de superioridade, pelo menos circunstancialmente, roga, com êxito, a possibilidade de custodiar o objeto de sua veneração e de seu carinho, quase sempre na posição de reencarnados, em regime de completa renúncia.

(Evolução em Dois Mundos, Parte II, IX, André Luiz/Chico Xavier/Waldo Vieira, FEB)

O CASO TOBIAS - No terceiro dia de trabalho, alegrou-me Tobias com agradável surpresa. Findo o serviço, ao entardecer, de vez que outros se incumbiram da assistência noturna, fui fraternalmente levado à residência dele, onde me aguardavam belos momentos de alegria e aprendizado.
Logo de entrada, apresentou-me duas senhoras, uma já idosa e outra bordejando a madureza. Esclareceu que esta era sua esposa e aquela, irmã. Luciana e Hilda, afáveis e delicadas, primaram em gentilezas.
Reunidos na formosa biblioteca de Tobias, examinamos volumes maravilhosos na encadernação e no conteúdo espiritual.
A senhora Hilda convidou-me a visitar o jardim, para que pudesse observar, de perto, alguns caramanchões de caprichosos formatos. Cada casa, em "Nosso Lar", parecia especializar-se na cultura de determinadas flores. Em casa de Lísias, as glicínias e os lírios contavam-se por centenas; na residência de Tobias, as hortênsias inumeráveis desabrochavam nos verdes lençóis de violetas. Belos caramanchões de árvores delicadas,
recordando o bambu ainda novo, apresentavam no alto uma trepadeira interessante, cuja especialidade é unir frondes diversas, à guisa de enormes laços floridos, na verde cabeleira das árvores, formando gracioso teto.
Não sabia traduzir minha admiração. Embalsamava-se a atmosfera de inebriante perfume. Comentávamos a beleza da paisagem geral, vista daquele ângulo do Ministério da Regeneração, quando Luciana nos chamou ao interior, para leve refeição.
Encantado com o ambiente simples, cheio de notas de fraternidade sincera, não sabia como agradecer ao generoso anfitrião.
A certa altura da palestra amável, Tobias acrescentou, sorridente:
- O meu amigo, a bem dizer, é ainda novato em nosso Ministério e talvez desconheça o meu caso familiar.
Sorriam ao mesmo tempo as duas senhoras; e, observando-me a silenciosa interpelação, o dono da casa continuou:
- Aliás, temos numerosos núcleos nas mesmas condições. Imagine que fui casado duas vezes...
E, indicando as companheiras de sala, prosseguiu num gesto de bom
humor:
- Creio nada precisar esclarecer quanto às esposas.
- Ah! sim - murmurei extremamente confundido -, quer dizer que as senhoras Hilda e Luciana compartilharam das suas experiências na Terra...
- Isso mesmo - respondeu tranqüilo.
Nesse ínterim, a senhora Hilda tomou a palavra, dirigindo-se a mim:
- Desculpe o nosso Tobias, irmão André. Ele está sempre disposto a falar do passado, quando nos encontramos com alguma visita de recém-chegados
da Terra.
- Pois não será motivo de júbilo - aduziu Tobias bem-humorado -, vencer o monstro do ciúme inferior, conquistando, pelo menos, alguma expressão de fraternidade real?
- De fato - objetei -, o problema interessa profundamente a todos nós. Há milhões de pessoas, nos círculos do planeta, em estado de segundas núpcias. Como resolver tão alta questão afetiva, considerando a espiritualidade eterna? Sabemos que a morte do corpo apenas transforma sem destruir. Os laços da alma prosseguem, através do Infinito. Como
proceder? Condenar o homem ou a mulher que se casaram mais de uma vez? Encontraríamos, porém, milhões de criaturas nessas condições. Muitas vezes já lembrei, com interesse, a passagem evangélica em que o Mestre nos promete a vida dos anjos, quando se referiu ao casamento na Eternidade.
- Forçoso é reconhecer, todavia, com toda a nossa veneração ao Senhor - atalhou o anfitrião, bondoso -, que ainda não nos achamos na esfera dos anjos e, sim, dos homens desencarnados.
- Mas, como solucionar aqui semelhante situação? - perguntei.
Tobias sorriu e considerou:
- Muito simplesmente; reconhecemos que entre o irracional e o homem há enorme série gradativa de posições. Assim, também, entre nós outros, o caminho até o anjo representa imensa distância a percorrer. Ora, como podemos aspirar à companhia de seres angélicos, se ainda não somos nem mesmo fraternos uns com os outros? Claro que existem caminheiros de ânimo forte, que se revelam superiores a todos os obstáculos da senda, por supremo esforço da vontade; mas a maioria não prescinde de pontes ou do socorro de guardiães caridosos. Em vista dessa verdade, os casos dessa natureza são resolvidos nos alicerces da fraternidade legítima, reconhecendo-se que o verdadeiro casamento é de
almas e essa união ninguém poderá quebrantar.
Nesse instante, Luciana, que se mantinha silenciosa, interveio, acrescentando:
- Convém explicar, todavia, que tudo isso, felicidade e compreensão, devemos ao espírito de amor e renúncia de nossa Hilda.
A senhora Tobias, no entanto, demonstrando humildade digna, acentuou:
- Calem-se. Nada de qualidades que não possuo. Buscarei sumariar nossa história, a fim de que nosso hóspede conheça meu doloroso aprendizado.
E continuou, depois de fixar um gesto de narradora amável:
- Tobias e eu nos casamos na Terra, quando ainda muito jovens, em obediência a sagradas afinidades espirituais. Creio desnecessário descrever a felicidade de duas almas que se unem e se amam verdadeiramente no matrimônio. A morte, porém, que parecia enciumada de nossa ventura, subtraiu-me do mundo, por ocasião do nascimento do segundo filhinho.
Nosso tormento foi, então, indescritível. Tobias chorava sem remédio, ao passo que eu me via sem forças para sufocar a própria angústia. Pesados dias de Umbral abateram-se sobre mim. Não tive remédio senão continuar agarrada ao marido e ao casal de filhinhos, surda a todo esclarecimento que os amigos espirituais me enviavam, por intuição.
Queria lutar, como a galinha ao lado dos pintainhos. Reconhecia que o esposo necessitava reorganizar o ambiente doméstico, que os pequeninos reclamavam assistência maternal. Tornava-se a situação francamente insuportável. Minha cunhada solteira não tolerava as crianças e a cozinheira apenas fingia dedicação. Duas amas jovens pautavam toda a conduta pessoal pela insensatez. Não pôde Tobias adiar a solução justa e, decorrido um ano da nova situação, desposou Luciana, contrariando meus caprichos. Ah! se soubesse como me revoltei! Semelhava-me a uma loba ferida. Minha ignorância deu até para lutar com a
pobrezinha, tentando aniquilá-la. Foi aí que Jesus me concedeu a visita providencial de minha avó materna, desencarnada havia muitos anos. Chegou ela como quem nada desejava, enchendo-me de surpresa, sentou-se a meu lado, pôs-me em seguida ao colo, como noutro tempo, e perguntou-me lacrimosa: - "Que é isso, minha neta? Que papel é o seu na vida? Você é leoa ou alma consciente de Deus? Pois nossa irmã Luciana serve de mãe a seus filhos, funciona como criada de sua casa, é jardineira do seu jardim, suporta a bílis do seu marido e não pode assumir o lugar provisório de companheira de lutas, ao lado dele? É assim que o seu coração agradece os benefícios divinos e remunera aqueles que o servem? Quer você uma escrava e despreza uma irmã? Hilda! Hilda! onde está a religião do
Crucificado que você aprendeu? Oh! minha pobre neta, minha pobre!..." Abracei-me, então, em lágrimas, com a velhinha santa e abandonei o antigo ambiente doméstico, vindo em companhia dela para os serviços de "Nosso Lar". Desde essa época, tive em Luciana mais uma filha. Trabalhei, então, intensamente. Consagrei-me ao estudo sério, ao melhoramento moral de mim mesma, busquei ajudar a todos, sem distinção, em nosso antigo lar
terrestre. Constituiu Tobias uma família nova, que passou a me pertencer, igualmente, pelos sagrados laços espirituais. Mais tarde, voltou ele, reunindo-se a mim, acompanhado de Luciana, que veio também ter conosco para nossa completa alegria. E aí tem, meu amigo, a nossa história...
Luciana, contudo, tomou a palavra e observou:
- Não disse ela, porém, quanto se tem sacrificado, ensinando-me com exemplos.
- Que dizes, filha? - perguntou a senhora Tobias, acariciando-lhe a destra.
Luciana sorriu e ajuntou:
- Mas, graças a Jesus e a ela, aprendi que há casamento de amor, de fraternidade, de provação, de dever, e, no dia em que Hilda me beijou, perdoando-me, senti que meu coração se libertara desse monstro que é o ciúme inferior. O matrimônio espiritual realiza-se, alma com alma, representando os demais simples conciliações indispensáveis à solução de necessidades ou processos retificadores, embora todos sejam sagrados.
- E assim construímos nosso novo lar, na base da fraternidade legítima - acrescentou o dono da casa.
Aproveitando o ligeiro silêncio que se fizera, indaguei:
- Mas como se processa o casamento aqui?
- Pela combinação vibratória - esclareceu Tobias, atencioso -, ou então, para ser mais explícito -, pela afinidade máxima ou completa.
Incapaz de sopitar a curiosidade, esqueci a lição de bom-tom e interroguei:
- Mas, qual a posição de nossa irmã Luciana neste caso?
Antes, porém, que os cônjuges espirituais respondessem, foi a própria interessada que explicou:
- Quando desposei Tobias, viúvo, já devia estar certa de que, com todas as probabilidades, meu casamento seria uma união fraternal, acima de tudo. Foi o que me custou a compreender. Aliás, é lógico que, se os consortes padecem inquietação, desentendimento, tristeza, estão unidos fisicamente, mas não integrados no matrimônio espiritual.
Queria perguntar mais alguma coisa; entretanto, não encontrava palavras que revelassem ausência de impertinente indiscrição. A senhora Hilda, contudo, compreendeu-me o pensamento e explicou:
- Fique tranqüilo. Luciana está em pleno noivado espiritual. Seu nobre companheiro de muitas etapas terrenas precedeu-a há alguns anos, regressando ao círculo carnal. No ano próximo, ela seguirá igualmente ao seu encontro. Creio que o momento feliz será em São Paulo.
Sorrimos todos alegremente.
Nesse instante, Tobias foi chamado à pressa, para atender a um caso grave nas Câmaras de Retificação.
Era preciso, desse modo, encerrar a palestra.

(Nosso Lar, cap. 38, André Luiz/Chico Xavier, FEB)