01 novembro 2009

DE KHALIL GILBRAN

Quando o amor te acenar, segue-o, ainda que por caminhos ásperos e íngremes.
E quando suas asas te envolverem, rende-te a ele, ainda que a lâmina escondida sob suas asas possa ferir-te.
E quando ele te falar, acredita no que ele diz, ainda que sua voz possa destroçar teus sonhos, assim como o vento norte açoita o jardim.
Pois, se o amor te coroa, ele também te crucifica. Se te ajuda a crescer, também te diminui. Se te faz subir às alturas e acarcia teus ramos mais ternos, que tremem ao sol, também te faz descer às raízes e abala a tua ligação com a terra.
Como os feixes de trigo, ele te mantém íntegro. Debulha-te até que fiques nu. Transforma-te, retirando a tua palha.Tritura-te, até que estejas branco.Amassa-te, até que te tornes macio; e então te apresenta ao fogo, para que te transformes em pão, no banquete sagrado de Deus.Todas essas coisas pode o amor realizar, para que saibas dos segredos do teu coração, e com esse conhecimento sejas um fragmento do coração , da vida.

30 outubro 2009

PANTEISMO ESPÍRITA

Uma das acusações constantemente formuladas ao Espiritismo pelos religiosos, e particularmente pelos teólogos, é a de panteísmo. Segundo afirmam, de modo geral, o Espiritismo seria uma concepção materialista do mundo, por confundir o Criador com a Criação. Já vimos que essa acusação é infundada. Ao tratar da Filosofia Espírita, verificamos que a cosmologia e a cosmogonia doutrinárias não permitem essa confusão. Anteriormente verificamos que o próprio Kardec, dedicou um capítulo ao problema em O Livro dos Espíritos, esclarecendo a posição do Espiritismo. Não obstante, convém analisarmos alguns aspectos da questão, para melhor definirmos o nosso pensamento a respeito.
Segundo a etimologia, e de acordo com o emprego tradicional do termo, panteísmo é uma concepção monista do mundo que pode ser traduzida na expressão: tudo é Deus. Espinosa foi o sistematizador filosófico dessa concepção. Deus é a realidade única, da qual todas as coisas não são mais do que emanações. Mas existe o chamado panteísmo materialista, não obstante a contradição dos termos. Segundo a concepção de D'Holbach, por exemplo, a realidade primária é o Mundo, e Deus é a suma do Mundo, ou seja, o resultado do conjunto de leis universais. Com razão se diz que não se trata propriamente de panteísmo, apesar do emprego tradicional da classificação. Essas duas formas de panteísmo são rejeitadas pelo Espiritismo.
Kardec argumenta, no comentário ao item 16 de O Livro dos Espíritos, que não sabemos tudo o que Deus é, mas sabemos o que ele não pode ser". Forma precisa de definir a posição espírita. Deus não pode ser confundido com o mundo, da mesma maneira por que um artista não pode ser confundido com suas obras. Assim como as obras exprimem a inteligência e a intenção pessoal do artista, nas várias direções seguidas pela sua inspiração, as obras de Deus o revelam ao nosso entendimento, mas não podemos confundi-las com seu Autor. O Espiritismo, portanto, não pode ser considerado como nenhuma forma de panteísmo, no sentido absoluto que se dá ao termo.
Apesar disso, podemos dizer que existe uma forma de panteísmo-espírita, se entendermos a palavra em sentido relativo. Essa forma, porém, não é privativa do Espiritismo. Aparece em todas as concepções religiosas, pois todas as religiões consideram universal a presença de Deus que se manifesta na natureza inteira e "está em todas as coisas". É conhecida a afirmação do apóstolo Paulo, de que vivemos em Deus e nele nos movemos. Essa fórmula encontra correspondência no pensamento grego e no pensamento romano: o racionalismo dos primeiros e o juridismo dos segundos constituem sistemas de leis universais, presididos por uma inteligência suprema. Quanto ao judaísmo, o providencialismo bíblico é uma forma ainda mais efetiva de panteísmo conceptual. Mas fora do âmbito da tradiição ocidental vamos encontrar a mesma concepção, tanto nas religiões indianas, quanto na própria religião filosófica ou civil do confucionismo, bem como entre os egípcios, os mesopotâmicos e os persas.
A presença universal de Deus é uma forma relativa de panteísmo, que nos mostra o Universo em relação estreita com Deus, a Criação ligada ao Criador. Mesmo no panteísmo espinosiano, é necessário compreendermos o panteísmo de maneira mais conceptual do que real, ou seja, num plano antes teórico do que prático. Porque Espinosa fazia a distinção entre o que chamava "natureza naturata", ou material, e "natureza naturans", ou inteligente. Deus, para ele, era está última, o que pode ser entendido, do ponto de vista espírita, como uma confusão entre o princípio-inteligente e Deus. Ou seja, Espinosa confundiu a Segunda hipóstase do universo, o Espírito, com a primeira, que é Deus. O Espiritismo não faz essa confusão, admitindo apenas a imanência de Deus no Universo, como conseqüência de sua própria transcendência.
Não é fácil compreendermos esse processo, sem uma definição dos termos. Mas quando procuramos examiná-los, tudo se torna mais claro. Imanente é aquilo que está compreendido na própria natureza, como elemento intrínseco, pertencente a sua constituição e determinante do seu destino. Dessa maneira, o panteísmo tem sido considerado uma teoria de imanência de Deus. Não obstante, a própria teologia católica considera as aspirações religiosas do homem como decorrência da imanência de Deus na alma. E o Cristianismo evangélico estabelece o princípio da imanência de Deus em nós mesmos. Como poderíamos entender, assim, a imanência daquilo que é transcendente, que está acima e além do mundo dos homens?
Este problema tem provocado grande celeuma no campo teológico, mas a posição espírita é de tal maneira clara, que a podemos compreender sem maiores dificuldades. Kardec a colocou em termos de causa e efeito: não há efeito inteligente sem uma causa inteligente. Ora, se deus é a inteligência suprema e causa primária de todas as coisas, a transcendência de Deus é a própria causa da sua imanência. Ou seja: Deus, como criador, está presente na Criação, através de suas leis, que representam ao mesmo tempo a ligação de todas as coisas ao seu poder e a possibilidade de elevação de todas as coisas à sua perfeição. A lei de evolução explica a imanência, como conseqüência lógica e necessária da transcendência. As disputas teológicas decorrem mais do formalismo em que o problema é colocado, do que das dificuldades lógicas ou filosóficas existente no mesmo.
O panteísmo-espírita não seria mais, portanto, do que a consideração da presença de Deus em todas as coisas, através de suas leis, e particularmente na consciência humana. No item 626 de O Livro dos Espíritos vemos a afirmação de que as leis divinas "estão escriitas por toda parte". Esse o motivo por que: "todos os homens que meditaram sobre a sabedoria puderam compreendê-las e ensiná-las". Reafirma ainda esse item: "Estando as leis divinas escritas no livro da natureza, o homem pôde conhecê-las sempre que desejou procurá-las. Eis porque os seus princípios foram proclamados em todos os tempos, pelos homens de bem, e também porque encontramos os seus elementos na doutrina moral de todos os povos saídos da barbárie, mas incompletos, ou alterados pela ignorância e a superstição". O relativismo panteísta está bem claro nesta proposição.
A presença de Deus, e portanto a sua imanência, não se restringe à consciência humana, mas estende-se a toda a natureza. Todas as religiões admitem esse princípio, de uma ou de outra forma, principalmente quando pretendem oferecer as provas da existência de Deus. O Espiritismo o esclarece, de maneira simples e precisa, retirando-o da névoa das discussões teológicas e colocando-o sob a luz dos princípios lógicos. Ainda neste terreno controvertido, como vemos, o Espiritismo se apresenta com todo o seu poder de esclarecimento.

J. Herculano Pires

27 outubro 2009

RELIGIÃO EM ESPÍRITO E VERDADE



1. O ESPIRITISMO E AS RELIGIÕES - A posição do Espiritismo, em face das religiões, foi definida desde o princípio, ou seja, desde a publicação de O Livro dos Espíritos. A terceira parte do livro tem o título de "Leis Morais", e começa pela afirmação: "A lei natural é a lei de Deus", que eqüivale ao reconhecimento da unidade divina de todas as leis que regem o universo. Note-se que Kardec e os Espíritos referem-se à lei de Deus no singular, como lei única, e nela incluem as leis morais, no plural. Assim, as leis morais são espécies de um gênero, que é a lei natural. Mas como esta não é a lei da Natureza, e sim a lei de Deus, não estamos diante de uma concepção monista natural mas de uma concepção monista de ordem ética. As religiões como fenômenos éticos, formas de educação moral das coletividades humanas, nada mais são do que processos diferenciados, segundo as necessidades circunstanciais e temporais da evolução, pelos quais as leis morais se manifestam no plano social.
Vejamos a explicação de Kardec, no comentário que fez ao item 617 de O Livro dos Espíritos: "entre as leis divinas, umas regulam o movimento e as relações da matéria bruta: essas são as leis físicas; seu estudo pertence ao domínio da ciência. As outras concernem especialmente ao homem em si mesmo, e às suas relações com Deus e com seus semelhantes. Compreendem as regras da vida do corpo, tanto quanto as da vida da alma: essas são as leis morais". Dessa maneira, o Espiritismo nos oferece a visão global do Universo, num vasto sistema de relações, que unem todas as coisas, desde a matéria bruta até a divindade, ou seja, desde o plano material até o espiritual. As religiões, nesse amplo contexto, são como fragmentações temporárias do processo único da evolução humana.
Essa compreensão histórica permite ao Espiritismo encarar as religiões, não como adversárias, mas como formas progressivas do esclarecimento espiritual do homem, que atinge na atualidade um momento crítico, de passagem para um plano superior. Daí a afirmação de Kardec, feita em O Livro dos Espiritos e repetida em outras obras, particularmente em O que é o Espiritismo, de que este, na verdade, é o maior auxiliar das religiões. Auxiliar em que sentido? Primeiro, no sentido de fornecer às religiões, entrincheiradas em seus dogmas de fé, as armas racionais de que necessitam, para enfrentar o racionalismo materialista, e especialmente as armas experimentais, com que sustentar os seus princípios espirituais diante da ciências. Depois, no sentido de que o Espiritismo não é nem pretende ser uma religião social, pelo que não disputa um lugar entre as igrejas e as seitas, mas quer apenas ajudar as religiões a completarem a sua obra de espiritualização do mundo. A finalidade das religiões é arrancar o homem da animalidade e levá-lo a moralidade. O Espiritismo vem contribuir para que essa finalidade seja atingida.
Nisto se repete e se confirma o que o Cristo declarou, a propósito de sua própria missão, ao dizer que não vinha revogar a lei e os profetas, mas dar-lhes cumprimento. Como desenvolvimento natural do Cristianismo, o Espiritismo prossegue nesse mesmo rumo. Sua finalidade não é combater, contrariar, negar ou destruir as religiões, mas auxiliá-las. Para auxiliá-las, porém, não pode o Espiritismo endossar os seus erros, o seu apego aos formalismos religiosos, a sua aderência às circunstâncias. Por que tudo isso diminui e enfraquece as religiões, expondo-as ao perigo do fracasso, diante das próprias leis evolutivas, que impulsionam o homem para além das suas convenções circunstanciais. O Espiritismo, assim, não condena as religiões. Considera que todas elas são boas - o que é sempre contestado com violência pelo espírito de sectarismo - mas pretende que, para continuarem boas, não estacionem nos estágios inferiores, já superados pela evolução humana.
Justamente por isso, o Espiritismo se apresenta, aos espíritos formalistas e sectários, como um adversário perigoso, que parece querer infiltrar-se nas estruturas religiosas e miná-las para destruí-las. Era o que parecia o Cristianismo primitivo, para os judeus, gregos e romanos. Não obstante, os ensinos de Jesus não visavam à destruição, mas ao esclarecimento e à libertação do pensamento religioso da época. Podem alegar os religiosos atuais que os espíritas os combatem, às vezes com violência. O mesmo faziam os cristãos primitivos, em relação às religiões antigas. Mas essa atitude agressiva não decorre dos princípios doutrinários, e sim das circunstâncias sociais em que se encontram os inovadores, diante da tradição. Por outro lado, é preciso considerar que a agressividade das religiões para com o Espiritismo é uma constante histórica, determinada pela própria natureza social das religiões organizadas ou positivas. Nada mais compreensível que o revide dos espíritas, quando ainda não suficientemente integrados nos seus próprios princípios.
No capítulo segundo da terceira parte de O Livro dos Espíritos, item 653, temos a explicação e a justificação da existência das religiões formalistas. Kardec estuda, através de perguntas aos Espíritos, a lei da adoração, que é o fundamento e a razão de ser de todo o processo religioso. Desse diálogo resulta a posição espírita bem definida: "A verdadeira adoração é a do coração." Não obstante, a adoração exterior, através do culto religioso, por mais complicado e material que este se apresente, desde que praticada com sinceridade, corresponde a uma necessidade evolutiva dos espíritos a ela afeiçoados. Negar a esses espíritos a possibilidade de praticarem a adoração exterior, seria tão prejudicial, quanto admitir que os espíritos que já superaram essa fase continuassem apegados a cultos materiais. A cada qual, segundo as suas condições evolutivas.
O princípio da tolerância substitui, portanto, no Espiritismo, o sistema de intolerância que marca estranhamente a tradição religiosa. As religiões, pregando o amor, promoveram a discórdia. Ainda hoje podemos sentir a agressividade do chamado espírito-religioso, na intolerância fanática das condenações religiosas. Por isso, Kardec, esclareceu em O Evangelho Segundo o Espiritismo, que o princípio religioso da doutrina não era o de salvação pela fé, e nem mesmo pela verdade, mas pela caridade. A fé é sempre interpretada de maneira particular, como a dogmática de determinada igreja a apresenta. A verdade é sempre condicionada às interpretações sectárias. Mas a caridade, no seu mais amplo sentido, como a fórmula do amor ao próximo ensinada pelo Cristo, supera todas as limitações formais. A salvação espírita não está na adesão a princípios e sistemas, mas na prática do amor.

J.Herculano Pires

25 outubro 2009

ENTREVISTA COM AMIT GOSWAMI

Amit Goswami, físico, doutorado em física nuclear, nasceu na Índia, filho de um guru hinduísta. Foi pesquisador e professor titular de fisica teórica da Universidade de Oregon, nos EUA, por 32 anos a partir de 1968. Após um período de crise na carreira, mudou seu foco de pesquisa para cosmologia quântica e aplicações da mecânica quântica ao problema da relação mente-corpo. Publicou o polêmico livro A Física da Alma. Alia em seu trabalho o conhecimento de tradições místicas com exploração científica, buscando unificar espiritualidade e física quântica. Participou do filme chamado Quem somos nós? (What The Bleep Do We Know? em inglês) e que se tornou sucesso de bilheteria nos Estados Unidos, sendo também muito difundido em DVD no Brasil. É também autor de outros livros traduzidos para o português como A Janela Visionária, O Médico quântico, e O Universo Autoconsciente.

POEMA DA ÉTICA

Que as religiões ajudem a construir pessoas cada vez mais éticas, pois esse talvez seja o caminho para o "paraíso".

24 outubro 2009

SÓRDIDOS PORÕES

A civilização dita cristã no ocidente ainda não compreendeu que Jesus é o exemplo da centralidade mais admirável que se conhece. Em todo o Seu ministério jamais houve lugar para a exclusão, para a exceção. Ele sempre se caracterizou pela proposta de solidariedade humana e pela igualdade dos direitos humanos.
A Sua mensagem renovadora tem uma direção certa: a transformação moral da criatura para melhor, sempre e incessantemente. Nesse sentido, ninguém se pode considerar indene ao crescimento interior ou excluído da oportunidade.
Jamais o Mestre preferiu aquele que tem mais ou que pensa ser mais, preterindo aqueloutros detestados, marginalizados, esquecidos.
À semelhança dos profetas antigos Ele veio resgatar os mais sofridos, os mais perseguidos, os mais desesperados. Não há lugar em Sua palavra para qualquer tipo de preconceito. Ele próprio pertenceu a um lugar de excluídos, conforme anotou João no comentário feito por Natanael, quando convidado por Filipe para conhecê-lO: - Pode vir alguma coisa boa de Nazaré? (Jo. I-46).
Não poucas vezes Ele sofreu o opróbrio, a humilhação, o acinte, a perseguição sistemática.
Conhecendo, portanto, a hediondez da perversidade e injustiça humana, Ele colocou no centro aqueles que são empurrados para a periferia, para a marginalidade, fazendo com eles um pacto de amor. É esse amor que viceja em toda a mensagem neotestamentária, renovando as esperanças do mundo e apontando um rumo de segurança onde predomine a vera fraternidade.
Os indivíduos que se apresentam como sendo mais poderosos, mais possuidores, também não foram rejeitados, porquanto Ele sabia que esses, igualmente são infelizes, refugiando-se no terror, na opressão, na vingança, na exploração do seu próximo, através de cujos artifícios se sentem seguros nos tronos de mentira em que se sentam.
Os opressores, os perseguidores, são pessoas que perderam a direção de si mesmos, tornando os corações empedrados, por não se permitirem a doçura que tanto desejam e de que sentem irresistível falta. Invejam-na em quem a tem, e por isso, através da projeção do seu conflito, perseguem-no implacavelmente, com violência, como se a houvessem roubado do seu sacrário íntimo.
Jesus respeitou todas as vidas, concedendo o direito de cidadania igualitária a todos quantos adotassem o reino de Deus e se empenhassem pelo conseguir.
Os modernos cristãos, conforme ocorreu com muitos outros no passado, não compreenderam esse ensinamento, que registraram no cérebro, mas não insculpiram nos sentimentos. São capazes de abordar o tema da solidariedade com lágrimas, no entanto, não saem do pedestal em que se encastelam, para proporcionar centralidade ao seu próximo, arrancando-o da periferia marginalizadora.
*
Não obstante as gloriosas conquistas culturais, científicas e tecnológicas, o ser humano ainda mantém o seu próximo em muitos porões de exclusão, que são habitados pelos que se fizeram ou foram tornados marginais: crianças que se prostituem por imposição da crueldade moral, geradora da miséria sócio-econômica, pela escravidão do indivíduo que não tem escolha e perdeu a liberdade de decisão e de movimento, e os que vivem nas ruas do mundo, desconsiderados e sem quaisquer direitos, perfeitamente descartáveis pela sociedade hedonista.
Suas dores, suas necessidades são propositalmente ignoradas, e não raro, tidos como lixo social, são assassinados, exilados, expulsos dos seus guetos, porque enxovalham a sociedade que os excluiu.
Trata-se de hediondez da modernidade, que somente pensa no crescimento horizontal do seu poder e da sua libertinagem, esquecendo-se do ser humano em si mesmo, que é o grande investimento da vida.
Nesse lixo social, encontram-se também muitas jóias perdidas: homens e mulheres de bem e de valor, que derraparam nas ruelas da existência e não tiveram resistência para enfrentar e vencer as vicissitudes, enveredando pelo alcoolismo, pela toxicomania, pela perversão de conduta nos vícios sexuais, vivendo nos escuros porões que lhes servem de refúgio.
Perdida a dignidade humana, eles relutam para permanecer nesses sítios de vergonha e sombras, sendo denominados como criminosos, mesmo que crime algum hajam cometido.
Rotulados de lixo, criminosos, excluídos, gentalha, perdem a identidade e não se encorajam a recuperar a sua humanidade, que lhe foi tirada e nunca devolvida.
Afirma-se que esses irmãos da agonia se recusam a sair dos porões onde se encontram, e que, ao serem retirados, fogem de retorno aos mesmos lugares onde se entregam aos disparates da vergonha moral. Talvez tenham razão com a exceção, jamais com a totalidade.
Ocorre, muitas vezes, que se encontram enfermos, sem autoconfiança, sem nenhuma auto-estima, e autopunem-se, após haverem sido torturados, estuprados, pervertidos. A sua terapia de recuperação é lenta, quanto o foi a imposição da degradação, da perda de sentido existencial.
É impressionante observar como poucos cristãos dão-se conta do que está ocorrendo a sua volta e poderá atingir o seu castelo de refúgio e de ilusão. Mesmo quando vêm à superfície as denúncias contra a dignidade violada do seu próximo e ele aparece como fantasma apavorante, esses cristãos cerram os olhos para não o ver e tapam os ouvidos, a fim de não escutar o clamor da sua voz, porque isso os perturba e inquieta, tirando-lhes alguns momentos de sono ou de excesso de alimentos.
...E confessam a crença em Deus, a Quem dizem amar, em Jesus, que tomam por modelo teórico, mas não lhe seguem os ensinamentos libertadores.
Perfumados e bem vestidos evitam o contato com eles, nunca se permitem ir aos porões, temem-nos e abandonam-nos, quando os deveria visitar e amar, procurando conviver com eles, trazendo-os à luz do dia da compreensão de todos.
Eles ficam nos seus porões e os cristãos nos seus esconderijos de luxo e de proteção com medo deles, aqueles a quem Jesus procurou trazer para o centro, retirando-os do abismo escuro em que se refugiavam.
*
Felizmente, nem todos os cristãos se escondem do seu próximo retido nos porões. Eles denunciam a sua existência, tentam arrancá-los dos sórdidos lugares onde jazem, esquecidos e perseguidos, recordando-se de Jesus, e imitando-O.
Raia uma luz na treva em favor dos excluídos, ainda muito débil é certo, mas que se expandirá como o rosto brilhante da manhã após a noite renitente, que vai devorada pela claridade.
O novo Cristianismo propõe que se acabem com os porões, que se recicle o lixo social mediante os mecanismos do amor, que se traga para o centro da comunidade todos aqueles que têm sido excluídos, de forma que a sociedade se torne verdadeiramente digna do Mestre e Senhor, que é Modelo e Guia para todos através dos evos...

Joanna de Ângelis (espírito)
(Página psicografada pelo médium Divaldo P. Franco, no dia 13 de julho de 2000, em Paramirim, Bahia).

22 outubro 2009

EVOLUÇÃO E DESTINO

O mal está determinado no conteúdo do nosso destino?
Ninguém nasce destinado ao mal, porque semelhante disposição derrogaria os fundamentos do Bem Eterno sobre os quais se levanta a Obra de Deus.O Espírito renascente no berço terrestre traz consigo a provação expiatória a que deve ser conduzido ou a tarefa redentora que ele próprio escolheu, de conformidade com os débitos contraídos.Prevalece aí o mesmo princípio que vige para as sociedades terrestres, pelo qual, se o homem é malfeitor confesso, deve ser segregado em estabelecimento correcional adequado para a reeducação precisa, e, se é apenas aprendiz no campo da experiência, com dívidas e créditos, sem falta grave a resgatar, é justo possa pedir às autoridades superiores, que lhe presidem os movimentos, o gênero de trabalho ou de luta em que se sinta mais apto ao serviço de auto-aperfeiçoamento. Entendamos, porém, que, se perpetrou delito passível de dolorosa punição, não é ele internado na penitenciária ou no trabalho reparador para que se desmande, deliberadamente, em delitos maiores, o que apenas lhe agravaria as culpas já formadas perante a Lei.É natural que o devedor, nessa ou naquela forma de resgate, venha a sofrer fortes impulsos a recidivas no erro em que faliu, tanto maiores quão mais extenso lhe tenham sido o transviamento moral; entretanto, a provação deve ser assimilada como recurso de emenda, nunca por válvula de expansão das dívidas assumidas.Desse modo, ninguém recebe do Plano Superior a determinação de ser relapso ou vicioso, madraço ou delinqüente, com passagem justificada no latrocínio ou na dipsomania, no meretrício ou na ociosidade, no homicídio ou no suicídio. Padecemos, sim, nesse ou naquele setor da vida, durante a recapitulação de nossas próprias experiências, o impulso de enveredar por esse ou aquele caminho menos digno, mas isso constitui a influência de nosso passado em nós, instilando-nos a tentação, originariamente toda nossa, de tornar a ser o que já fomos, em contraposição ao que devemos ser.
Qual a relação percentual de tempo existente entre os estágios que o Espírito de elevação mediana vive como encarnado e como desencarnado?
A percentagem de tempo no plano espiritual para as criaturas de elevação mediana varia com o grau de aproveitamento de tempo no estágio recente que desfrutaram no corpo físico.Quão mais vasta a provisão de conhecimento e maior a aquisição de virtudes, por parte do Espírito, mais largo período desfruta na Esfera Superior para obtenção de mais nobres recursos para mais alta ascensão.
Poderíamos identificar algum elo da evolução que existe no Plano Extrafísico e que é desconhecido na Terra?
Além do plano físico, a investigação humana encontrará material valioso de observação para elucidar os variados problemas concernentes à evolução do ser.
Ainda na atualidade, os Instrutores Espirituais intervém na melhoria das formas evolutivas inferiores nas quais o princípio inteligente estagia?
Sim, porque todos os campos da Natureza contam com agentes da Sabedoria Divina para a formação e expansão dos valores evolutivos.
Dentre todos os animais superiores, abaixo do homem, qual é o detentor de mais dilatas ideias-fragmentos?
O assunto demanda longo estudo técnico na esfera da evolução, porque há ideias-fragmentos de determinado sentido mais avançados em certos animais que em outros. Ainda assim, nomearemos o cão e o macaco, o gato e o elefante, o muar e o cavalo como elementos de vossa experiência usual mais amplamente dotados de riqueza mental, como introdução ao pensamento contínuo.

(Evolução em Dois Mundos, cap. XVIII, André Luiz/Chico Xavier/Waldo Vieira, FEB)

21 outubro 2009

ENTREVISTA COM DIVALDO PEREIRA FRANCO

A respeito do Movimento Espírita

01. É correto, em nome da caridade, erguerem-se instituições de amparo e socorro a necessitados de ordem material, sem recursos que as possam devidamente sustentar, optando na continuidade por leilões, bingos, quermesses e loterias para sua manutenção?
Parece-me que o momento atual convida-nos, aos espíritas, para uma atividade mais profunda em torno do conceito da caridade, que é a busca dos meios capazes de exterminar as causas geradoras da miséria econômica, decorrente do egoísmo, das injustiças sociais. A educação das novas gerações apresenta-se-nos como de caráter urgente, a fim de que o futuro possa caracterizar-se pela ausência dessa terrível chaga moral da Humanidade.
Assim pensando, não me parece justo que sejam erguidas novas Instituições sem que possuam o respaldo dos recursos financeiros para levá-las adiante, recorrendo-se a expedientes perturbadores, quais sejam: o bingo, as rifas, os leilões, as quermesses e as loterias, que são disfarces que escondem os denominados "jogos de azar" de nefastas conseqüências.
Seria ideal que os interessados em servir, apoiassem as Instituições existentes, que lutam com muitas dificuldades para se manterem, evitando que novas frentes de socorro se apresentem impossibilitadas de seguir adiante.
02. Os companheiros que compomos as equipes de trabalho no Movimento Espírita, traçamos as linhas mestras de tal encontro e tal tarefa, na Espiritualidade?
Quando estamos preparando-nos para a reencarnação e temos consciência das responsabilidades que pesarão sobre os nossos ombros, face às maravilhosas possibilidades de auto-soerguimento, elegemos algumas das tarefas que gostaríamos de executar na Terra, por serem mais compatíveis com o nosso temperamento e estrutura espiritual. Noutras vezes, mais raramente, somos convidados pelos Mentores espirituais a desenvolvermos labores que nos serão valiosos recursos de crescimento interior, enquanto contribuiremos para o processo de aceleração do progresso da Humanidade.
03. Temos observado um crescente número de obras mediúnicas portarem nomes veneráveis nos campos do bem, da ciência e das artes. Quando tais obras se situam muito aquém do que produziram quando encarnados aquelas personalidades, você tem registros de como encaram essa má utilização dos seus nomes os espíritos?
Allan Kardec, com a sua sobriedade e sabedoria, advertiu-nos a todos quanto às mistificações dos Espíritos zombeteiros e perturbadores, mas também, a respeito dos médiuns inescrupulosos e levianos, que trabalham em favor do próprio ego, abordando as conseqüências de uma como de outra atitude. Não obstante, vemos com muita freqüência a repetição de comportamentos incompatíveis com as diretrizes da Doutrina, no campo da mediunidade, mais particularmente da publicação de Obras (livros, peças de teatro, pinturas e músicas), que são firmadas por nomes respeitáveis e nobres, apresentando qualidade muito inferior ao que esses Autores produziram quando reencarnados anteriormente.
É natural que esses Espíritos se sintam constrangidos com a ocorrência, lamentando a insensatez de que são tomados os indivíduos que lhes utilizam a memória indevidamente, mas não se afligem, porque reconhecem que a responsabilidade é de cada qual, deixando os irresponsáveis semeando o futuro que os aguarda...
04. A literatura mediúnica mais recente tem trazido ao conhecimento do público histórias e relatos de pessoas que nos foram contemporâneas, detalhando suas experiências post mortem e suas tarefas assumidas na Espiritualidade, na sequência. Tal postura não pode ser prejudicial, criando oportunidades de endeusamentos?
Uma das características mais marcantes do ser evoluído é a humildade, que se revela através da discrição em torno de si mesmo, e de acontecimentos nos quais foram envolvidos, evitando evocá-los com objetivos de autopromoção e de vaidade, que prosseguem lutando para desses vícios morais despojar-se totalmente.
Se examinarmos os romances biográficos escritos por nobres Espíritos, como Emmanuel, Victor Hugo, Rochester, Charles, através de médiuns seguros, encontraremos relatos de alguma das suas experiências passadas, convidando, porém, os leitores a reflexões acuradas, a fim de que se dêem conta do que lhes aconteceram, evitando que o mesmo lhes suceda.
05. No mundo espiritual, quanto na Terra, existe um Movimento Espírita Jovem, permitindo que os jovens desencarnados prossigam em labores ou os espíritos optam por tarefas, independentemente do período que foram colhidos pela desencarnação?
Existe, sim, no mundo espiritual, um Movimento Espírita Jovem, que recebe aqueles que desencarnam em nossas fileiras ainda na quadra juvenil, estimulando-os ao prosseguimento do bom combate e preparando-os para futuros renascimentos. Quando porém, se trata de Espíritos mais elevados, transcorrido algum tempo após a desencarnação, eles reassumem a postura que independe de faixa etária e se integram nas atividades gerais do processo de evolução desenhado para o planeta terrestre assim como para eles mesmos.

(Jornal Mundo Espírita )