06 abril 2010

MATRIMÔNIO E DIVÓRCIO

Poderíamos receber algumas noções acerca do matrimônio, bem como do divórcio no Plano Físico, examinados espiritualmente?

Nas esferas elevadas, as almas superiores identificam motivo de honra no serviço de amparo aos companheiros menos evolvidos que estagiam nos planos inferiores.
Não podemos olvidar que, na Terra, o matrimônio pode assumir aspectos variados, objetivando múltiplos fins. Em razão disso, acidentalmente, o homem ou a mulher encarnados podem experimentar o casamento terrestre diversas vezes, sem encontrar a companhia das almas afins com as quais realizariam a união ideal. Isso porque, comumente, é preciso resgatar essa ou aquela dívida que contraímos com a energia sexual, aplicada de maneira infeliz, ante os princípios de causa e efeito.
Entretanto, se o matrimônio expiatório ocorre em núpcias secundárias, o cônjuge liberado da veste física, quando se ajuste à afeição nobre, freqüentemente se coloca a serviço da companheira ou do companheiro na retaguarda, no que exercita a compreensão e o amor puro. Quanto à reunião no Plano Espiritual, é razoável se mantenha aquela em que prevaleça a conjunção dos semelhantes, no grau mais elevado da escala de afinidades eletivas. Se os viúvos e as viúvas das núpcias efetuadas em grau menor de afinidade demonstram sadia condição de entendimento, são habitualmente conduzidos, depois da morte, ao convívio do casal restituído à comunhão, desfrutando posição análoga à dos filhos queridos junto dos pais terrenos, que por eles se submetem aos mais eloqüentes e multifários testemunhos de caridade e sacrifício pessoal para que atendam, dignamente, à articulação dos próprios destinos.
Contudo, se a desesperação do ciúme ou a nuvem do despeito enceguecem esse ou aquele membro da equipe fraterna, os cônjuges reassociados no plano superior amparam-lhe a reencarnação, à maneira de benfeitores ocultos, interpretando-lhes a rebelião por sintoma enfermiço, sem lhes retirar o apoio amigo, até que se reajustem no tempo.
Ninguém veja nisso inovação ou desrespeito ao sentimento alheio, porquanto o lar terrestre enobrecido, se analisado sem preconceitos, permanece estruturado nessas mesmas bases essenciais, de vez que os pais humanos recebem , muitas vezes, por filhos e filhas, aqueles mesmos laços do passado, com os quais atendem ao resgate de antigas contas, purificando emoções, renovando impulsos, partilhando compromissos ou aprimorando relações afetivas de alma para alma. É nessa condição que em muitas circunstâncias surgem nas entidades renascentes, sem que o véu da reencarnação lhes esconda de todo a memória, as psiconeuroses e fixações infanto-juvenis, cuja importância na conduta sexual da personalidade é exagerada em excesso pelos sexólogos e psicanalistas da atualidade, carentes de mais amplo contato com as realidades do Espírito e da reencarnação, que lhe permitiriam ministrar aos seus pacientes mais efetico socorro de ordem moral.
Quanto ao divórcio, segundo os nossos conhecimentos no Plano Espiritual, somos de parecer não deva ser facilitado ou estimulado entre os homens, porque não existem na Terra uniões conjugais, legalizadas ou não, sem vínculos graves no princípio da responsabilidade assumida em comum.
Mal saídos do regime poligâmico, os homens e as mulheres sofrem-lhe ainda as sugestões animalizantes e, por isso mesmo, nas primeiras dificuldades da tarefa a que foram chamados, costumam desertar dos postos de serviço em que a vida os situa, alegando imaginárias incompatibilidades e supostos embaraços, quase sempre simplesmente atribuíveis ao desregrado narcisismo de que são portadores. E com isso exercem viciosa tirania sobre o sistema psíquico do companheiro ou da companheira mutilados ou doentes, necessitados ou ignorantes, após explorar-lhes o mundo emotivo, quando não se internam pelas aventuras do homicídio ou do suicídio espetaculares, com a fuga voluntária de obrigações preciosas.
É imperioso, assim, que a sociedade humana estabeleça regulamentos severos a benefício de nossos irmãos contumazes na infidelidade aos compromissos assumidos consigo próprios, a benefício deles, para que não se agreguem a maior desgoverno, e a benefício de si mesma, a fim de que não regresse à promiscuidade aviltante das tabas obscuras, em que o princípio e a dignidade da família ainda são plenamente desconhecidos.
Entretanto, é imprescindível que o sentimento de humanidade interfira nos casos especiais, em que o divórcio é o mal menor que possa surgir entre os grandes males pendentes sobre a fronte do casal, sabendo-se, porém, que os devedores de hoje voltarão amanhã ao acerto das próprias contas.

(Evolução em Dois Mundos, Parte II, VIII, André Luiz/Chico Xavier/Waldo Vieira, FEB)


A COSMOVISÃO ESPÍRITA

Qual a posição do homem no Universo? A de “simples pó”, como proclamou o Eclesiaste? A de “medida de todas as coisas”, como pretenderam os surfistas? A de um “deserto da Natureza”, como afirmou Nietzche? A de “uma paixão inútil”, como querem Sartre e os seguidores? Não. Para a Filosofia Espírita, posição do Homem no Universo decorre do próprio objetivo da encarnação, qual seja, o de pôr o Espírito em condições de suportar a parte que lhe toca na obra da criação. E para executá-la é que, em cada mundo, toma o Espírito um instrumento, de harmonia com a matéria essencial desse mundo, a fim de aí cumprir, daquele ponto de vista, as leis de Deus. É assim que, concorrendo para a sua obra geral, ele próprio se adianta (O Livro dos Espíritos) ou, por outras palavras, a posição do Homem no Universo é a de um autêntico co-criador em plano menor, isto é, alguém condições de, conscientemente, contribuir para a efetivação do Plano da Criação.

O Homem não é, então, segundo a Filosofia Espírita, nem princípio nem final de jornada, mas um momento de inexcedível significação. Consciente, conhece as próprias possibilidades; consciente, sabe que pode e deve mudar as coisas (incluindo-se entre elas). Tal consciência, porém, abre ao Homem perspectivas quase divinas, atribuindo-lhe grande dose de responsabilidade, dono que toma o próprio destino e do mundo que ajuda a construir. Em que se baseará, todavia, para a garantia da execução de sua praxes? Onde o timoneiro seguro para a sua ação? Na Lei Natural, a única verdade para a felicidade do Homem. Ela lhe indica o que deve fazer ou não fazer, e ele só será infeliz porque dela se afasta. E tal Lei Natural, segundo preceitua a obra básica da Doutrina Espírita, se inscreve na nossa Consciência. Por isso que, acreditando (o Homem) poder organizar a Lei de Deus na Terra, para depois refazê-la a seu modo. Com esse ente de razão baseado no orgulho não desorganiza senão a si mesmo e ao próprio mundo!

Resulta indiscutível que a posição do Homem no Universo assume uma grandiosa importância. No mundo é o Homem um Espírito em evolução, que necessita dele para evoluir. Por outro lado, também o mundo não prescinde do Espírito para o seu progresso. O mundo existe, é fora de dúvida. Nós existimos nele, Homem e mundo, porém, não se confundem; interdependem-se. Mas o mundo não é escravo do Homem e o Homem não pode tornar-se escravo do mundo, tanto quanto deve saber usá-lo corretamente. Em síntese: nem escravizá-lo a si, nem escravizar-se a ele.

Carlordo Bernardo Loureiro

05 abril 2010

POR QUE NÃO DISCUTIR OS MISTÉRIOS?

Há alguns anos, a pesquisadora Elsie Dubugras escreveu um interessante arquivo, divulgado na Revista O Assunto É..., da Editora Três, de São Paulo, sobre uma série de questionamentos ligados à religião. Ela inicia o referido artigo com esta indagação: “O que é salvação?”. Durante muitos anos procurou o significado dessa palavra, tão freqüentemente usada pelos religiosos. E repete: “Que seria salvação?”. E ela tenta responder com as seguintes perguntas: “Das doenças? Das dificuldades do dia-a-dia? Dos sofrimentos?”

Como não ficasse satisfeita com sua própria tentativa de encontrar a solução do “mistério”, foi em busca da opinião daqueles que julgava capacitados a responder: os religiosos. Com variações na forma de dizer, mas com idêntico conteúdo, afirmavam-lhe “que seria o resgate das penas eternas causadas pelos pecados cometidos”. Ela admitiu que a resposta chagara, em princípio ,a lhe causar certa impressão, todavia, ao submetê-la ao crivo de criteriosa e serena reflexão, percebeu o paradoxo, suscitando-lhe a seguinte indagação: “Por que Deus onipotente, onisciente, criador de todas as coisas teria criado seres humanos tão frágeis – seres que forçosamente errariam – e, ao mesmo tempo, criado um inferno onde lançaria por toda a eternidade, a não ser que fossem “salvos” de seus erros através de um esquema que Ele também criara?” Responderam-lhe, prontamente: “É preciso ter fé.” E ela: “Mas, como se faz para ter fé? – “É uma graça que Deus concede”. E insistiu a pesquisadora, com aquela inquietude própria dos que admitem Deus como a Inteligência suprema – como conseguir esta graça? – Finalizaram, taxativamente: Isto é um mistério”. Se as respostas eram, até certo ponto prosaicas, a saída às perguntas da articulista, fora, realmente, inteligente... Justificava-se a explicitação: “Mistério não se discute. Não se deve procurar desvendá-los. E duvidar é pecado. Jamais ela conseguiu, nesse sentido, uma resposta satisfatória, coerente e justa.”

“Ante essas dificuldades – declarou – acabei por penetrar no deserto da descrença; mergulhei num vácuo filosófico – religioso onde permaneci durante muito tempo, até que a curiosidade ou o impulso interno renasceu, e resolvi procurar a resposta a essas questões”. Lia tudo que lhe caia nas mãos, entrando em contato com pessoas que professavam doutrinas não dogmáticas. Não tardou em vislumbrar uma pálida luz no fim do túnel. Aprendeu, nessa trajetória, e, que prevaleceu o bom senso, “que não é possível barganhar com o Todo Poderoso. Ele não aceita intermediários nem tolera, no seu relacionamento com indivíduos, expedientes tipo “solução brasileira”, com o emprego do tão falado “jeitinho” ou “quebra galho”. Outra coisa que aprendeu é que milagres não existem. O que chamamos milagre é simplesmente o fruto de certas leis que foram sabiamente acionadas. A “graça”, longe de ser um presente arbitrário que o Criador concede a alguns privilégios, é, na verdade, o produto da fé que nasce do conhecimento da razão. E o que parece ser uma “graça” é, por certo, um teste para o qual poucos estão em condições de responder. A verdadeira fé é essencialmente ativa e não absurdamente passiva. A pesquisadora Elsie Dubugras, nas suas últimas pesquisas, penetrou no terreno sempre fértil do Espiritismo. Não sei se ela percebeu...




04 abril 2010

A FORÇA DA RAZÃO


O célebre naturalista inglês Sir Alfred Russel Wallace (êmulo de Darwin), presidente da Sociedade Britânica de Antropologia, referindo-se aos fenômenos espíritas declarou: “Eu era um materialista tão completo e convicto que não podia haver no meu espírito lugar para existência espiritual e para qualquer outro agente universal, senão a matéria e força. Os fatos, porém, são coisas bem teimosas. A minha curiosidade foi, a princípio, despertada por alguns fenômenos ligeiros, mas inexplicáveis, que se produziam numa família de minhas relações, e o meu desejo de saber e o amor pela verdade forçaram-me a prosseguir nas investigações. Os fatos tornaram-se cada vez mais exatos e variados, e ao mesmo tempo distantes de tudo que a Ciência moderna ensina e de todas as especulações da filosofia atual. Os fatos venceram-me!” Mais tarde, Russel Wallace escreveria: “Le Moderne Spiritism” (edição francesa), livro onde inseriu parte considerável de suas notáveis pesquisas sobre os fenômenos provocados pelos Espíritos. O outro não menos famoso cientista que se dedicou, com acendrado amor às investigações espíritas, foi Sir William Crookes, descobridor do tálium eletroscópio, o fotômetro, o radiômetro e os raios catódios, que dariam origem aos Raios X, de Roetingen. Este cientista brilhante, sem preconceito, realizou por anos, meticulosas pesquisas no campo da fenomelogia mediúnica, obtendo resultados surpreendentes. Afirma ele no livro “Fatos Espíritas”: “Os diversos fenômenos que venho atestar são extraordinários e completamente oposto aos mais enraizados pontos do credo científico – entre outros a universal e consagrada ação da força gravitacional”. No discurso que o ilustre sábio fez em setembro de 1898 no Congresso da Associação Britânica para o Progresso da Ciência, enfrentando, com coragem própria das grandes almas, uma platéia de crentes e descrentes, reafirma: “trinta anos se passaram desde que publiquei as atas das experiências tendentes a mostrar que fora dos nossos conhecimentos científicos, existe uma força posta em atividade por uma inteligência diferente da inteligência comum a todos os mortais. Nada tenho de que me retratar em relação a essas experiências, quando materializam-se Espíritos à luz do dia, e mantenho as minhas verificações já publicadas, podendo a elas acrescentar novos fatos, decorrentes do aprofundamento de minhas investigações sobre a sobrevivência do Ser após a falência do corpo físico”. Mais tarde, o descobridor do tálium declarava, categórico, numa entrevista concedida ao periódico inglês “Two World”: “O espírito está cientificamente demonstrado”. É deveras importante para a Doutrina Espírita o testemunho de William Crookes. Afinal de contas, o descobridor do quarto estado da matéria tem assegurado, nas páginas da História da Ciência, um lugar ao lado de Newton e do inesquecível Einstein. Modernamente, as postulações transcendentais de Crookes, baseadas na investigação criteriosa dos fatos, foram confirmadas por Berkeley, nestas palavras: “Nenhum objeto existe fora do Espírito que o percebe. O mundo só se transforma em realidade visível e tangível porque preexiste em nós um ser imortal que reflete conscientemente dando-lhe objetividade”.

Aos leitores destes arrazoados, recomendamos, como leitura suplementar, a obra “Provas Científicas da Sabedoria”, de Frederic Zollner, professor de Física da Universidade de Leipzig. Este livro poderá ser encontrado na Livraria Bezerra de Menezes, Shopping São Bento, Rua Nova de São Bento, Nazaré.

Carlos Bernardo Loureiro


03 abril 2010

CARLOS BERNARDO LOUREIRO, INESQUECÍVEL

O PENSAMENTO É UMA SECREÇÃO DO CÉREBRO?


Se a inteligência dos vivos fosse capaz de produzir levitações tomar os tecidos incombustíveis, falar línguas e discorrer sobre temas que jamais aprendeu, premunir acontecimentos próximos ou remotos, compor obras de arte comparáveis aos dos grandes mestres, criar fantasmas de seres reais etc., haver-se-ia de atribuir ao Homem poderes quase divinos.

O professor Charles Henry, no seu livro “O Homem depois da Morte”, citado pelo pesquisador Faure da Rosa, não teve dúvidas em proclamar: “A morte de modo nenhum implica a perda da consciência e da personalidade.”

Maurice Blondel, que escreveu “Ensaio de uma Crítica da Vida”, por sua vez admite: “A inteligência não carece da integridade cerebral para se manifestar.” O Dr. Agostinho Itunicha, em discurso da Sociedade Antropológica da La Plata, comunicava que um jovem de 14 anos, tratado pelo Dr. Fernando Ortiz, autor da obra “A Filosofia Penal dos Espíritas”, morrerá no pleno uso das suas faculdades intelectuais apesar de ter a

Massa encefálica completamente destacada do bulbo raquidiano, nas mesmas condições que as de um homem realmente decapitado.

Na necropsia que fizeram no cadáver, com a maior estupefação dos cirurgiões, descobriu-se que as meningites estavam cheias de sangue e que um obsesso ocupava uma parte do cérebro e a protuberância cerebral. No entanto, pensava como qualquer pessoa saudável algum tempo antes de morrer.

“Les Annales des Sciences Psychiques” de 1917 referem-se a um caso curioso apresentado por Edmond Perrier à Academia de Ciência de Paris, acerca de uma observação do Dr. L.J. Robson: “Um homem que viveu um ano sem sofrimento, sem nenhuma perturbação aparente pensando, portanto, apesar de ter o cérebro que não era mais que um enorme abcesso purulento.”

Um só desses caos, segundo Henri Bergson (1859-1941), autor de “Ensaios sobre os Dados Imediatos da Consciência”, citado por Charles Richet, devia ser bastante para demonstrar que a inteligência funciona independentemente da integridade do cérebro. Também para Bergson, ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 1927, cérebro e consciência correspondem-se porque ambos medem, um pela complexidade de sua estrutura e o outro pela veemência de sua atividade, o quantitativo de seleção que o ser vivo dispõe. Mas esta correspondência nada tem de equivalência nem paralelismo. Precisamente porque um estado cerebral exprime, simplesmente, o que nada há de ação incipiente no estado do psicológico correspondente; o estado psicológico excede infinitamente o estado cerebral.

De uma maneira mais simples, mais clara e probatória, segundo Faure da Rosa: “A consciência de um ser vivo é solidária com seu cérebro da mesma maneira que uma faca pontiaguda é solidária com sua ponta; o cérebro é a ponta acerada onde a consciência penetra o tecido compacto dos acontecimentos, mais não é co-extensivo à consciência que a ponta o é da faca.”

Ainda é H. Bergson que reconhece de uma maneira precisa que o cérebro não é mais que um instrumento de ação.

O cérebro não determina o pensamento; por conseguinte, o pensamento, em grande parte, pelo menos, é independente do cérebro. O cérebro é um órgão de pantomia. O seu papel é minar a vida do espírito... O Espírito ultrapassa o cérebro e a atividade cerebral corresponde, apenas, a uma ínfima parte da atividade mental. Isto quer dizer também que a vida do Espírito não pode ser o efeito da vida do corpo, que tudo se passa ao contrário como se o corpo fosse, simplesmente, utilizado pelo Espírito e que, portanto, nenhuma razão temos se supor que o corpo e o Espírito estejam inseparavelmente ligado um ao outro.

Entre outros testemunhos, Maurice Blondel cita o caso de Claude Bernard, autor da consultadíssima “Introdução ao Estudo da Medicina Experimental”:

“Dizer que o cérebro segrega o pensamento eqüivale a dizer que o relógio segrega a idéia de tempo. O cérebro e o relógio são mecanismos, um vivo, o outro inerte: eis toda diferença”.

Uma lâmpada elétrica ilumina com a energia que atua o filamento metálico da ampola... exemplifica Blondel. Se esta ampola se quebrar, a luz extingue-se. Segue-se daí que a corrente deixou de existir? A prova de que existe é uma nova lâmpada intacta, ajustada, iluminará imediatamente.

Dá-se o mesmo com a inteligência: “É uma força, uma corrente espiritual que ilumina o nosso cérebro. Se o cérebro morrer, segue-se, daí, que a corrente que o fazia atuar deixou de existir?”

Para Edmond Wietrich, o Espírito não pode conceber-se fora de suas manifestações, de suas múltiplas formas de atividade. É o sinônimo de pensamento, de consciência, de liberdade. O é o indispensável veículo da alma; é a sua mecânica. O corpo permite que a alma tenha uma consciência nítida de si mesma; é o amálgama de estanho que faz a alma um espelho mágico. Sem ele, a alma regressaria à noite do inconsciente...



A PRECE, O PENSAMENTO E A VONTADE


Pensamento é a única força, a grande causa. Se toda a humanidade orasse, formar-se-ia sobre o planeta um manto magnético inimaginável em suas propriedades positivas. Haveria mais saúde, mais paz geral. Se já em pequenos locais, onde se costumam seguidamente orar, se sente a energia espiritual das coisas, que seria da Terra se ela fosse um maravilhoso templo de oração constante?

O indivíduo que ora se fortalece mentalmente. E tendo vigor mental, tem vigor físico, férrea e natural conseqüência. Física e espiritualmente, o homem é o que pensa. O que ora, pois, consegue a realização em si do sonhado binômio integral: paz – saúde. Todo o equilíbrio celular é comandado pelo pensamento. Em nós, portanto, está a chave da felicidade. Se a quisermos, obtê-la-emos.

Por outro lado, através da prece podemos aliviar as dores de inúmeros sofredores. Aliás, sobre isso, há já antiquíssimo conhecimento e uso através das civilizações milenares. A alma do povo sente a intuição coletiva, universal, das verdades eternas.

Podemos erradicar vibrações poderosas em benefício de doentes e de Espíritos sofredores. As energias são aproveitadas pelos guias e dirigentes, depois de ampliados e modificados em seu tônus espiritual para objetivos seguros. E quanto maior número de mentes harmonizadas, melhor a sintonia, mais extensa as possibilidades de recursos.

A capacidade volitiva, enfim, é o principal fator do êxito da prece. Deve haver desejo, predisposição `renovar-se. A vontade aumenta com a compreensão e o próprio exercício. A vontade está diretamente vinculada à força da fé. Fé e sublimação da vontade, é confiar, é acreditar, é ter certeza, de que as rogativas sinceras e equilibradas encontrarão a receptividade.

A prece pressupõe fé, e fé compreende vontade!

A prece, finalmente, é uma solene introspecção, isto é, atenção dirigida para o íntimo ser. Há diferentes fases nessa introspecção:

Superficial: que se verifica no período intelectual da prece. A pessoa tenta afastar-se, aos poucos, do mundo objetivo para refugiar-se dentro dela mesma e sentir-se espiritualmente;

Profunda: aquela m que o ser, conseguido o isolamento do mundo exterior busca contatar com Deus. Quanto maior a capacidade atencional – em duração e intensidade – maior ressonância espiritual conseguirá registrar.

Tais procedimentos, entretanto, não anulam as repercussões dolorosas motivadas ao longo da vida-de-relação da pessoa, segundo os atos que praticou, concede-lhe a força de que precisa para enfrentá-las sem queixumes e revoltas considerando-as imprescindíveis ao seu crescimento moral. Não foi sem razão, a propósito, que os gênios tutelares da Codificação do Espiritismo revelaram que a Lei de Deus se encontra registrada no íntimo do ser imortal. É aí que ele vai construir racional ente-de-razão em torno dos seus cruciais problemas do seu destino e de suas dores...

Carlos Bernardo Loureiro

CRISTIANISMO PRIMITIVO E PAIDEIA GREGA


Gilda Naécia Maciel de Barros
Faculdade de Educação da USP

Early Christianity and Greek Paideia é o título de uma obra do grande helenista Werner Jaeger, pulicada em 1961 e organizada a partir de conferências realizadas pelo autor na Universidade de Harvard em 1960. [2]

A exemplo de seu trabalho anterior, Paideia, Jaeger planejava elaborar uma obra de fôlego, que abrangesse o vasto processo histórico pelo qual a cristandade foi helenizada e cristianizada a civilização grega, obra da qual o livro em exame anteciparia os lineamentos gerais.

A morte impediu-o de realizar este projeto, o que sempre se há de lastimar, mas a agudeza do pensador salvou para nós, no Early Christianity and Greek Paideia, o essencial deste encontro histórico, de amplas consequências, entre a cultura grega e a religião cristã.

Na linha do historiador alemão Johann Gustav Droysen, para o qual o cristianismo surge do helenismo e dele toma as direções mais notáveis de seu primeiro desenvolvimento, Jaeger considera de importância decisiva para a afirmação do cristianismo como religião universal o processo de três séculos de expansão da cultura grega desencadeado pelas conquistas de Alexandre. Realmente, em torno da Bíblia irá organizar-se uma civilização com feições próprias, mas em razão de uma dialética vital entre o kerygma cristão, cujo maior esforço será ultrapassar os limites da Judéia, e esta cultura de muitos séculos e largas dimensões geográficas, a cultura grega.

Neste encontro histórico, a língua grega, falada em todas as sinagogas das cidades do Mediterrâneo, é fator decisivo. Ela põe ao alcance do judeu helenizado e do gentio a doutrina cristã, cuja forma literária, nesta tarefa de conversão, é muitas vezes grega.

Descrevendo o desenvolvimento histórico da religião cristã durante os primeiros séculos, Jaeger o vê como um processo contínuo de tradução das fontes hebraicas com o objetivo de oferecer ao mundo uma compreensão cada vez mais adequada de seu conteúdo.

Este processo se teria iniciado com os evangelistas, cujas interpretações doutrinárias se faziam conforme as categorias da Lei e os Profetas, dentro da tradição messiânica de Israel. A partir daí se daria o encontro da cultura clássica com o Cristianismo em proporções sempre mais amplas, o que já se pode ver na carta de São Clemente Romano aos coríntios, da última década do século 3 ª D. Nela o bispo de Roma procura justificar pela razão as exortações morais dirigidas à igreja que já ao apóstolo Paulo oferecera motivos de preocupação. Nesta carta, conforme procura mostrar Jaeger, pode perceber-se uma teoria filosófica grega interpretada em sentido cristão, bem como um método novo que, posteriormente, no século IV, os Padres da Igreja, combinando a autoridade da Bíblia e a razão, aplicariam em suas argumentações.

No século II da graça do Senhor, a rápida expansão do Cristianismo, antecipando as grandes controvérsias entre cristãos e pagãos do século seguinte, leva as elites intelectuais do mundo greco-romano, postas em contacto mais direto com a doutrina cristã, a lhe oporem uma primeira reação. Nesta época o Cristianismo, considerado a filosofia dos bárbaros, é severamente julgado pela mentalidade pagã com as categorias da cultura clássica. Canibalismo, ateísmo, subversão política, eis as principais acusações, a que os Padres da Igreja procuraram responder apologeticamente, aproveitando as circunstâncias para tornar simpático à causa de Cristo o público pagão. Entre este as reações mais negativas vêm ligadas a homens de cultura formados na tradição clássica, entre os quais se citam Tácito, Marco Aurélio, Galeno e Celso. Criticam-se no Cristianismo os seus fundamentos, a ausência do pensamento crítico e o apoio integral na fé.

Já entre os pensadores cristãos da mesma época podem perceber-se duas orientações opostas. Uma, representada por Justino e Atenágoras, na linha de Fílon, procura absorver a tradição grega na doutrina cristã. Quer mesmo aplicar ao Cristianismo algumas categorias espirituais da cultura grega e reconhece nela certos paralelismos com a doutrina cristã. A outra, de feições claramente anti-helênicas, defendida por Taciano, o assírio e Tertuliano, o africano, denuncia e condena a helenização do cristianismo. Tertuliano, em particular, separa razão e fé, e repete a idéia de um paralelo entre cristianismo e helenismo em termos filosóficos.

Com o século seguinte aumenta a necessidade de maior adaptação das interpretações dos evangelhos ao povo de fala grega, principalmente nas suas camadas mais altas. Isto vai exigir um esforço intelectual em nível mais profundo, do qual Alexandria passa a constituir-se em centro principal. Aí, então, com os trabalhos de Clemente e Orígenes, pode falar-se numa teologia cristã.

Sopesando o contacto criador do cristianismo com a tradição grega, Jaeger o vê como um desafio. Desafio de uma religião que reivindicava para si a posse da verdade, lançado à única cultura intelectual do mundo que tentara ser universal e o conseguira. Nestes termos, o cristianismo teria buscado na tradição grega a segurança de sua própria universalidade. Isto não nos deve levar à conclusão precipitada de que a doutrina de Cristo adquiriu proporções mundiais em razão exclusiva do apoio intelectual que lhe ofereceu o helenismo. Estamos diante de uma questão complexa e da maior importância que, examinada em dimensões mais amplas, põe em julgamento a força espiritual do cristianismo, seu poder de conversão e os motivos que levaram o mundo helenístico, preso pelas raízes à cultura grega, a deixar-se por ele seduzir e a adotá-lo. Nem nos parece que este ponto crucial tenha escapado a Jaeger. De fato, embora não se tenha manifestado com largueza sobre o assunto, o que talvez pretendesse fazer depois, o genial helenista nos adverte contra o erro de ver-se a helenização do pensamento cristão como um processo unilateral, sem relação alguma com as necessidades internas da civilização grega da época. A antiga religião dos deuses olímpicos, após a dissolução da polis, deixara um vazio de tal natureza que as correntes filosóficas mais significativas do mundo greco-romano foram levadas a preencher com a maior espiritualidade, nos termos de uma necessidade religiosa não racional. Quando aparece o cristianismo, torna-se conveniente e, por que não dizer, necessário à mentalidade pagã examinar esta fé que reune adeptos tão fieis, avança por todas as terras e, curiosamente, com recursos intelectuais emprestados à própria tradição clássica, parece aplicar com eficiência as formas necessárias para fazer-se entender por todos, gentios e cristãos.

Pois bem, esta tarefa de tradução cada vez mais eficiente da doutrina de Cristo, exposta agora também às camadas mais altas e mais cultas do meio pagão, exige da parte de seus defensores um trabalho cada vez mais elaborado, de homens eruditos e comportamento ascético. Constrói-se então uma interpretação da Bíblia em nível mais elevado, para satisfazer um público exigente, da razão mais crítica. Dão-se então os primeiros passos na elaboração do que se costuma chamar de filosofia cristã.

Estamos no século III ªD. e no início desta trajetória colocam-se as figuras de Clemente de Alexandria e Orígenes. A originalidade nestes dois homens, adverte Jaeger, constitui-se em se servirem da especulação filosófica para sustentar uma religião positiva fundada na revelação divina, alheia, em suas origens a uma investigação humana independente acerca da verdade.

Em outros termos, o processo de assimilação da tradição clássica pelo cristianismo pôde desenvolver-se com maior elasticidade a partir do momento em que, no meio cristão, homens intelectualmente formados na cultura grega passaram a reconhecer a capacidade religiosa da filosofia. Ora, esta atitude claramente assumida no século III por Clemente e Orígenes, entre outros, tinha a seu favor todo o esforço anterior de Fílon, que procurara mostrar como a fé hebraica podia ser exposta em termos da filosofia grega e justificada racionalmente. Isto sem considerar-se o trabalho dos estóicos no sentido de uma interpretação alegórica dos mitos antigos e, em particular, da teologia de Homero.

Com estes precedentes, o encontro do helenismo com o cristianismo em nível erudito adquire em Clemente e Orígenes uma importância da mais alta significação. Além de representar uma tentativa clara de fundamentação filosófica das verdades da fé, inaugura uma distinção entre o simples crente e o teólogo, entre aquele que tem apenas pistis e alcança um interpretação literal, quando muito histórica, da doutrina, e aquele que conhece o verdadeiro significado dos livros sagrados e entende certos exemplos bíblicos metaforicamente, como exemplos de grandes verdades metafísicas ou éticas. Nestes termos, apenas um tratamento erudito, fundado na tradição intelectual grega, pode levar o fiel à gnosis, em relação à qual a filosofia guarda a posição de propaideia. Descansando sobre a distinção já estabelecida pela cultura clássica entre um tipo esotério de saber, que traduz a verdade (aletheia) e outro, exotérico, que é a mera aparência (doxa), a teologia cristã procura firmar-se como representante da verdadeira gnosis. E esta se consubstancia nos seus mistérios, opostos aos da religião pagã, inteiramente falsos, mas que já a partir do séuclo IV aª., por oferecerem uma relação mais pessoal com a divindade, passaram a ocupar no coração do homem helenístico o vazio deixado pela fé olímpica. Desenvolve-se então todo um trabalho de exegese da doutrina cristã, voltado para a discussão da autentica natureza divina, daquilo que lhe é próprio (theoprepés), numa linha de preocupação que Jaeger filia a Xenófanes de Cólofon, do século VI ªC. E nesta tarefa de fixar e fundamentar os princípios vitais do Cristianismo, de superar-lhe o aparente caráter mitológico, não basta elevar Cristo à dignidade de pedagogo da humanidade, mas é preciso também cuidar para que orientações espúrias como o gnosticismo, o maniqueísmo e o mitraísmo não venham a comprometer a universalidade do kerygma cristão ou a representar-lhe um Ersatz fatal. Trabalha-se então em várias frentes, mas o maior problema é enfrentar o ideal de cultura grega como um todo e neste confronto solidificar a liderança espiritual da doutrina cristã. Deste encontro histórico o resultado será uma teologia cristã que não pode ocultar sua dívida com a erudição clássica. Prega-se uma nova paideia que tem em Cristo seu ponto vital e ao mesmo tempo preparam-se os andaimes de uma nova civilização, a civilização cristã.

Esta tarefa é retomada pelos padres capadócios na segunda metade do século IV ªD. Todavia, como assinala Jaeger, não basta agora afirmar o cristianismo como a paideia verdadeira e única, nos termos de Clemente de Alexandria, mas é preciso enfrentar o momento de restauração pagã da época, dentro do qual os valores da paideia grega se vão converter em religião e artigos de fé. As circunstâncias exigem que o cristianismo, para defender a pretensão de verdade e universalidade, assuma a liderança intelectual, e que seus adeptos mais qualificados mostrem o poder formador da doutrina de Cristo. São Basílio de Cesarea, São Gregório de Nisa, entre outros, devem produzir obras de alto nível, que possam conquistar intelectualmente as elites espirituais do paganismo, em suas reações agressivas à nova fé. Repensam-se as relações entre o cristianismo e a herança grega em nível mais profundo, esta última vista com simpatia e estima da parte de alguns autores cristãos. Há um renascimento da cultura clássica, que levou Jaeger a falar num neoclassicismo cristão, onde o cristianismo se declara herdeiro de tudo o que seja digno de sobreviver na tradição grega. Quer no ocidente latino, com Santo Agostinho, ou no oriente grego, com a cultura dos padres capadócios, a sabedoria clássica, pela retórica ou pela filosofia, se conjuga com a sabedoria da sinagoga e é posta a seu serviço. É neste contexto que se constrói uma verdadeira literatura cristã, muitas vezes livremente alimentada na tradição grega, como ocorre em São Gregório Nasianceno.

Embora os capadócios ataquem o helenismo em suas debilidades (atitude que em São Gregório de Nisa, além de reforçar a importância do dogma, de distanciar-se de uma interpretação intelctualista, ressalta o valor dos costumes veneráveis – liturgia e mistérios) há o interesse de se fazer do helenismo um instrumento da fé. Efetivamente, se na escola cristã nascente um São Basílio mostra-se simpático à introdução da antiga poesia grega como meio de educação superior, o próprio São Gregório de Nisa é um classicista de estilo.

Nesta luta com a herança clássica, adverte Jaeger, os pensadores do oriente grego e os do ocidente latino põem o arquétipo grego a seu serviço, não para lhe preservar o matiz exato, mas para, em torno dele, cristalizar as idéias de sua própria época. Entre estes pensadores, Jaeger faz sobressair a figura de São Gregório de Nisa, na sua opinião o homem capaz de ver todos os aspectos da paideia grega e que, na busca de um modelo de formação humana, mostra-se à altura das maiores exigências da filosofia pedagógica grega. Numa inspiração platonizante, dentro da qual a filosofia, em última análise, se resolve numa assimilação de Deus, são Gregório de Nisa traduz a paideia cristã numa deificatio, num processo de elevação espiritual que reintegra o homem da queda, criado à imagem e semelhança de Deus, no divino. A partir daqui, o padre capadócio desenvolve uma teoria dos graus do caminho místico da theognosis, que encontra nos Salmos e nas Epístolas de São Paulo o seu maior comprovante. De fato, a Bíblia, todo unitário inspirado pelo Espírito Santo, interpretada em diversos níveis, ocupa na educação cristã o mesmo lugar que a filosofia na educação grega. Literatura paidêutica de primeira ordem, oferece o paradigma pelo qual o crente deve moldar-se. Neste sentido, a formação do homem, a morphosis, idéia-chave na educação helênica, se constitui numa metamorphosis, numa radical mudança interior do homem caído, cada vez mais conforme ao modelo divino. Dentro das linhas teóricas da nova fé, a idéia de morphosis completa-se com a de graça. De fato, o esforço humano para a salvação é ineficaz sem a synenergeia, a cooperação divina. Por seus próprios recursos o homem, que em São Gregório de Nisa, ainda numa inspiração platônica, por natureza tende para o bem e, se comete o mal, fá-lo apenas por ignorância, jamais conseguirá a regeneração e o gozo do estado edênico. Neste processo de salvação, a crença numa vida futura, onde o castigo é catarse da alma, faz-se indispensável, ainda que o próprio São Gregório não pense em punição eterna. Por trás da idéia de salvação individual coloca-se a de um plano mais amplo de apocatástasis, tomada a Orígenes, que leva a uma restauração final da obra divina originária.

Visto na essência, o trabalho de Jaeger estuda o humanismo cristão em suas origens, quando ainda é necessário sistematizar as verdades da fé, dar-lhe uma fundamentação teórica, a partir daquela mensagem viva ligada à figura de Cristo. Jaeger mostra também como essa tarefa foi executada a partir do confronto entre o cristanismo e o helenismo e em função dele. O kerygma cristão deve impor-se espiritualmente num mundo afeiçoado à tradição grega, e pôde universalizar-se a partir do momento em que, confrontando-se com ela, embora fiel à sua inspiração original, a pôs a seu serviço.

Ao concluir seu livro, chamando a atenção para importância de toda a tradição literária do oriente bizantino, que tem nas obras dos padres gregos a parte mais seleta, Jaeger levanta o problema da extensão de sua influência no pensamento renascentista, italiano e europeu. Nesta linha de preocupação, lembra também nosso débito para com este antigo humanismo cristão, sem o qual pouco teria sobrevivido da literatura e da cultura clássicas. E, deste ângulo, o autor vê seu trabalho não como o último capítulo da história do ideal da paideia no mundo da antiguidade grega, mas também como o prólogo da história de suas transformações latinas e medievais.



1. Artigo publicado por primeira vez em 21/9/1975 em “O Estado de S. Paulo” e a autora assinava Gilda Naécia Simões.

[2] Nesta obra, embora se refira também aos pensadores do Ocidente Latino, Jaeger limita-se a examinar em pormenor os pensadores da tradição grega.

02 abril 2010

GENEALOGIA DO ESPÍRITO

"Com a Supervisão Celeste, o princípio inteligente gastou mais ou menos quinze milhões de séculos, a fim de que pudesse, como ser pensante, embora em fase embrionária da razão, lançar as suas primeiras emissões de pensamento contínuo para os Espaços Cósmicos."

Os naturalistas situados no chão do mundo, desde os sacerdotes egípcios que estudavam a origem da vida planetária em conchas fósseis, até os mais eminentes biólogos modernos, atreitos à unilateralidade de observação, compreensivelmente não conseguirão suprir as lacunas existentes no quadro da evolução, não obstante Cuvier, com a Anatomia Comparada, tenha traçado forma básica à sistemática da Paleontologia.
Em verdade, porém, para não cairmos nas recapitulações incessantes, em torno de apreciações e conclusões que a ciência do mundo tem repetido à saciedade, acrescentaremos simplesmente que as leis da reprodução animal, orientadas pelos Instrutores Divinos, desde o casulo ferruginoso do leptótrix, através da retração e expansão da energia nas ocorrências do nascimento e morte da forma, recapitulam ainda hoje, na organização de qualquer veículo humano, na fase embriogênica, a evolução filogenética de todo o reino animal, demonstrando que além da ciência que estuda a gênese das formas, há também uma genealogia do espírito. Com a Supervisão Celeste, o princípio inteligente gastou, desde os vírus e as bactérias das primeiras horas do protoplasma na Terra, mais ou menos quinze milhões de séculos, a fim de que pudesse, como ser pensante, embora em fase embrionária da razão, lançar as suas primeiras emissões de pensamento contínuo para os Espaços Cósmicos.

(Evolução em Dois Mundos, VI, André Luiz/Chico Xavier/Waldo Vieira, FEB)

EVOLUÇÃO NO TEMPO - É assim que dos organismos monocelulares aos organismos complexos, em que a inteligência disciplina as células, colocando-as a seu serviço, o ser viaja no rumo da elevada destinação que lhe foi traçada do Plano Superior, tecendo com os fios da experiência a túnica da própria exteriorização, segundo o molde mental que traz consigo, dentro das leis de ação, reação e renovação em que mecaniza as próprias aquisições, desde o estímulo nervoso à defensiva imunológica, construindo o centro coronário, no próprio cérebro, através da reflexão automática de sensações e impressões, em milhões e milhões de anos, pelo qual, com o Auxílio das Potências Sublimes, que lhe orientam a marcha, configura os demais centros energéticos do mundo íntimo, fixando-os na tessitura da própria alma.
Contudo, para alcançar a idade da razão, com o título de homem, dotado de raciocínio e discernimento, o ser, automatizado em seus impulsos, na romagem para o reino angélico, despendeu para chegar aos primórdios da época quaternária, em que a civilização elementar do silex denuncia algum primor de técnica, nada menos que um bilhão e meio de anos. Isso é perfeitamente verificável na desintegração natural de certos elementos radioativos na massa geológica do Globo. E entendendo-se que a Civilização aludida floresceu há mais ou menos duzentos mil anos, preparando o homem, com a bênção do Cristo, para a responsabilidade, somos induzidos a reconhecer o caráter recente dos conhecimentos psicológicos, destinados a automatizar na constituição fisiopsicossomática do espírito humano as aquisições morais que lhe habilitarão a consciência terrestre a mais amplo degrau de ascensão à Consciência Cósmica.

(Evolução em Dois Mundos, III, André Luiz/Chico Xavier/Waldo Vieira, FEB)